Terça-Feira, 11 de Agosto de 2026

“Mulheres e Motores” com Rita from the Pit Lane

“Mulheres e Motores” com Rita from the Pit Lane

@Fernando Simões

@Fernando Simões

@Fernando Simões

@Fernando Simões

@Fernando Simões

@Fernando Simões

“Mulheres e Motores” com Rita from the Pit Lane
@Fernando Simões
@Fernando Simões
@Fernando Simões

Região

“Mulheres e Motores” com Rita from the Pit Lane

Uma conversa sobre sonhos, escolhas e liberdade

Criado em 2022 por quatro amigas, o projeto Feminismo Para Tod*s promove regularmente encontros em diferentes locais do concelho de Cantanhede com o objetivo de incentivar a reflexão e o debate sobre feminismo, igualdade de género e direitos humanos.

“Mulheres e Motores” foi o tema de uma das mais recentes Rodas de Conversa promovidas pelo projeto Feminismo Para Tod*s, num encontro realizado no passado dia 14 de julho, no Garden Café, em Cantanhede. Mais do que uma conversa sobre automobilismo, a sessão com Rita from the Pit Lane, portuguesa residente na Escocia, comunicadora ligada ao universo do desporto motorizado, acabou por ser também uma reflexão sobre infância, escolhas, preconceitos, identidade e a liberdade de cada pessoa poder seguir o seu próprio caminho.

Rita começou por falar de uma criança que, desde cedo, parecia não caber muito bem nas expectativas que lhe eram colocadas. Falava muito, fazia perguntas e interessava-se por coisas que nem sempre pareciam interessar aos outros. Gostava de palco e chegou a montar em casa o seu próprio estúdio de televisão, onde os peluches faziam de plateia e ela apresentava o
seu programa, o “Ponto de Encontro”.

A partir dessa memória de infância surgiu uma das ideias centrais da conversa: quando somos crianças, sonhamos sem limites. À medida que
crescemos, aprendemos, muitas vezes sem que ninguém o diga explicitamente, quais são os sonhos que supostamente são aceitáveis.
E é precisamente aí, defendeu Rita, que começa o feminismo.

Os sinais que aprendemos a não ver

A sua história passa também por Anadia, pelos primeiros interesses e por uma paixão que sempre esteve presente: os automóveis e a Fórmula 1. Gostava daquele universo, mas durante muito tempo nunca imaginou que pudesse vir a trabalhar nele.

É neste ponto que a conversa se alargou para além da experiência pessoal. Os brinquedos que são colocados nas mãos das crianças, a forma como os produtos são apresentados nas lojas e as mensagens, muitas vezes invisíveis, que lhes são transmitidas acabam por ajudar a definir aquilo que cada uma
acredita poder ou não fazer.

“Muitas raparigas nem chegam ao ponto de partida.”

A frase sintetiza uma das preocupações centrais da sessão: antes de discutir se as mulheres conseguem chegar a determinados lugares, importa perceber quantas são condicionadas, desde muito cedo, a acreditar que esses lugares não são para elas.

Descobrir que o problema não era ela

Outro dos momentos marcantes do testemunho de Rita foi a descoberta tardia de que aquilo que durante muitos anos interpretara como uma característica pessoal ou até como uma falha tinha uma explicação. O diagnóstico de TDAH, já aos 30 anos, levou-a a olhar de outra forma para a sua própria história. Rita falou de uma área de investigação durante muito tempo mais centrada nos rapazes e de como, nas mulheres, os sintomas podem assumir formas diferentes ou ser mascarados, contribuindo para diagnósticos tardios.

Mais do que falar apenas de um diagnóstico, Rita descreveu esse momento como uma descoberta pessoal: a possibilidade de perceber que o problema nunca tinha sido simplesmente ela não conseguir encaixar-se nas expectativas dos outros. Foi também o momento em que começou a compreender que não precisava de ser aquilo que esperavam que fosse.

Escócia: começar de novo

A mudança para a Escócia representou um novo capítulo. Um novo país, sem contactos estabelecidos, sem certezas e sem um caminho profissional
previamente definido. Foi então que pegou no telemóvel e começou a gravar vídeos.

Não porque alguém lhe tivesse pedido. Porque gostava.

Um gesto aparentemente simples acabaria por abrir uma porta para um universo profissional que, até então, parecia distante.

Vieram depois a BBC, equipas de competição, a Aston Martin, a Audi, o WRC, o BTCC e o contacto com pilotos e profissionais do automobilismo.

Mas, na narrativa de Rita, o currículo é menos importante do que aquilo que ele representa.

A miúda que apresentava programas para os peluches estava agora a entrevistar pilotos.

A infância, afinal, não tinha ficado para trás. Tinha apenas encontrado uma forma diferente de se concretizar.

O preço de ocupar espaço

Chegar a esse lugar também teve um preço. Rita falou dos comentários, dos insultos e das críticas que surgem sobretudo quando uma mulher entra num território ainda muito associado aos homens. Entre as acusações está, por vezes, a ideia de que uma mulher que fala de automóveis deveria simplesmente “voltar para a cozinha”.

Mas Rita fez questão de introduzir uma nuance importante: os comentários mais violentos existem, mas representam uma minoria. E, do outro lado, encontrou também muitos homens que a apoiam, acompanham o seu trabalho e reconhecem a importância de haver mais mulheres naquele espaço.

É aqui que a conversa regressa ao feminismo.

O feminismo não é contra os homens.

É, também, uma forma de libertação para eles, ao questionar os papéis que tradicionalmente lhes são atribuídos e permitir que cada pessoa possa escolher o seu caminho sem estar limitada pelas expectativas impostas pelo género.

Não é preciso escolher entre segurança e paixão

Rita falou ainda de uma ideia que muitas vezes acompanha quem procura transformar uma paixão numa profissão: a necessidade de escolher entre a
segurança e aquilo que realmente gosta de fazer.

A realidade é, porém, mais complexa.

Para além do trabalho ligado ao automobilismo, Rita mantém uma carreira profissional numa empresa. O desporto motorizado não é, portanto, a única dimensão da sua vida profissional.

É possível ter um trabalho que garante estabilidade e, simultaneamente, continuar a perseguir um sonho.

Uma ideia particularmente importante para quem acredita que seguir uma paixão exige necessariamente abandonar tudo o resto.

Afinal, qual era o vosso “Ponto de Encontro”?

No final, a história regressa ao princípio.

À criança que montava um estúdio de televisão em casa e apresentava um programa para uma plateia de peluches.

Durante muitos anos, aquela poderia parecer apenas uma brincadeira. Hoje, olhando para trás, Rita pode vê-la de outra forma: era talvez a primeira
versão da pessoa que viria a ser. E é precisamente aí que a história individual se transforma numa reflexão mais ampla.

Para Rita, o feminismo não significa convencer todas as raparigas a gostar de carros, de motores ou de Fórmula 1.

Significa garantir que qualquer rapariga possa gostar daquilo que quiser — e que qualquer rapaz tenha igualmente o direito de escolher o seu caminho.

A sessão deixou, por isso, duas perguntas que ultrapassam o universo do automobilismo:

Qual era o vosso “Ponto de Encontro”?

O que sonhavam ser quando eram crianças?

E será que essa pessoa ainda vive em vocês?

A Roda de Conversa “Mulheres e Motores” mostrou que falar de mulheres no desporto motorizado é, afinal, falar de muito mais do que carros e competição. É falar sobre quem nos dizem que podemos ser — e, sobretudo, sobre a liberdade de descobrir quem realmente queremos ser.

Cantanhede

Autor: Fernando Simões

Find A Doctor

Give us a call or fill in the form below and we will contact you. We endeavor to answer all inquiries within 24 hours on business days.