Mealhada recorda conquistas dos últimos 45 anos em honra da Revolução dos Cravos
No passado dia 25 de abril cumpriu-se a tradição de celebrar a “Revolução de Abril” com a realização de uma […]
No passado dia 25 de abril cumpriu-se a tradição de celebrar a “Revolução de Abril” com a realização de uma sessão solene da Assembleia Municipal, concretizada, este ano, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Mealhada. Nesta reunião, de cariz especial, marcaram presença as várias forças partidárias, cujas intervenções fizeram menção às conquistas da população portuguesa e dos mealhadenses.
O primeiro partido a tomar a palavra foi o PCP (Partido Comunista Português), na pessoa de Isabel Lemos. A comunista fez menção “às conquistas dos trabalhadores, ao crescendo de formação, à educação” que se registaram no pós 25 de Abril, defendendo que algumas dessas conquistas foram desvirtuadas “com a integração de Portugal na União Europeia” e com a submissão da sociedade a “diversos interesses capitalistas”.
Seguiu-se Dilan Granjo, em representação do Bloco de Esquerda. O bloquista começou por chamar a atenção para duas problemáticas atuais: “o crescimento de movimentos da extrema-direita que assola não só a Europa, como todo o mundo, e a crise ambiental associada aos problemas do clima”. Dilan Granjo defendeu, também no seu discurso a importância dos “ideais antifascistas e anticapitalistas, que representam a luta contra o Estado Novo, a Revolução de 74 e todo o processo revolucionário que daí se formou” para os dias de hoje, justificada “porque o Serviço Nacional de Saúde está a passar por sérias dificuldades, porque a degradação da escola pública é uma realidade, porque a violência sobre as mulheres é um flagelo gravíssimo por resolver, porque há localidades onde não há um único meio de transporte público, porque os jovens já não acreditam em nenhuma palavra que nós, agentes políticos, proferimos e porque a pobreza é uma realidade para uma parte considerável da população”. A terminar a sua intervenção, Dilan Granjo afirma: “os ideais da revolução perduram enquanto houver quem lute por eles, enquanto houver alguém que resista e diga não! Porque quem adormece em democracia, acorda em ditadura. Nós não podemos adormecer. Não vamos adormecer!”
“Os ideais da revolução perduram enquanto houver quem lute por eles, enquanto houver alguém que resista e diga não!”, Dilan Granjo, Bloco de Esquerda
Gabriela Seabra Pereira tomou a palavra em nome da coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada”, confessando-se “arrepiada” quando recorda “a vida dos cidadãos deste país antes e a vida dos cidadãos deste país depois” da conquista da liberdade. Para Gabriela Seabra Pereira, “a liberdade é muito mais do que o fim de uma qualquer ditadura”, é uma das condições essenciais da realização humana e ao mesmo tempo uma enorme responsabilidade em relação aos outros, ao mundo, ao país e de modo particular ao local onde residimos. A este propósito, Gabriela Seabra Pereira afirma residir “numa terra sedenta de arte e de cultura”, que “não tem onde realizar o tanto que lhe vai na alma. Não tem o apoio de que necessita para impulsionar toda a vontade, a criatividade e a novidade de que precisa para se reinventar e para não morrer de “desesperança”. Na reta final do discurso, Gabriela Seabra Pereira confessa que esta realidade não é sintoma de liberdade e considera que “isto é o reflexo do medo, da inoperância, da desigualdade, da assimetria em que continuamos mergulhados, apesar de Abril”.
“A liberdade é muito mais do que o fim de uma qualquer ditadura”, Gabriela Seabra Pereira, coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada”
Pelo Partido Socialista falou Susana Almeida, que se confessou “filha da Revolução dos Cravos”, tendo por isso nascido em liberdade. A socialista lembrou e agradeceu aos Capitães de Abril por terem fechado a porta à ditadura do Estado Novo, e quis também prestar homenagem “a todos os heróis anónimos, homens e mulheres, que, com coragem ímpar, coração a latejar em voz alta e a engolir em seco, enfrentavam clandestinamente a ditadura ou pugnavam publicamente por uma mudança ideológica e de valores”. Susana Almeida aproveitou ainda a ocasião para homenagear o avô, “que durante o dia era oficial de justiça e à noite se vestia de mulher e distribuía panfletos contra o regime ou se reunia clandestinamente com demais insurretos e congeminava formas de se opor à iniquidade do regime”. Feitos os agradecimentos e homenagens, a socialista colocou também a tónica do seu discurso na igualdade de género. “Também aos Capitães de Abril devo o facto de hoje, enquanto mulher, poder falar aqui publicamente. A mulher da sociedade portuguesa oprimida era uma semipessoa, era a mulher subalterna, era a esposa dedicada, a fada do lar e a boa mãe, sempre obediente e permissiva quanto a todo o tipo de violência ou maltrato protagonizados pelo marido”, referiu. No entanto, a socialista lamenta que ainda não se tenha alcançado “a igualdade substantiva, mas apenas a igualdade formal”, plasmada em inúmeras leis, decretos-lei, Resoluções da Assembleia da República e Despachos do Governo.
“Também aos Capitães de Abril devo o facto de hoje, enquanto mulher, poder falar aqui publicamente”, Susana Almeida, Partido Socialista
Rui Marqueiro, presidente da Câmara Municipal da Mealhada, também usou da palavra na sessão solene da Assembleia Municipal. O autarca focou o seu discurso na identificação de algumas das conquistas dos mealhadenses, que contribuíram para a evolução do concelho nos últimos 45 anos: “a recuperação do Cineteatro Messias e colocação ao serviço da cultura e da população, a recuperação do antigo matadouro, hoje Espaço Inovação Mealhada, a concretização do Parque da Cidade, do Jardim Público da Pampilhosa e do Parque do Lograssol, a criação da Fundação Mata do Bussaco e das zonas industriais”. Para além disso, o autarca fez menção à “dotação do município de infraestruturas fundamentais para a melhoria da qualidade de vida das populações, como as redes de saneamento e água, com uma cobertura quase a 100% no concelho e que, se numa primeira fase, foram criadas de raiz, estão atualmente a ser objeto de recuperação e atualização”.
Rui Marqueiro recorda conquistas dos mealhadenses ao longo de 45 anos
A anteceder à sessão solene da Assembleia Municipal, teve lugar o cumprimento à Guarda de Honra, composta pelas corporações de Bombeiros da Mealhada e da Pampilhosa, seguindo-se a atuação da Filarmónica Lyra Barcoucense 10 de Agosto e uma largada de pombos, pelo Grupo Columbófilo da Mealhada.
Nesta cerimónia foi também prestada homenagem aos combatentes mortos na guerra colonial, com a deposição de uma coroa de flores no monumento que lhes é dedicado e que se encontra no jardim frente ao edifício municipal.
Das celebrações dos 45 anos da “Revolução dos Cravos” fez parte um momento cultural, ao abrigo do qual o grupo de fados de Coimbra “Distância” atuou, e onde também se inseriu uma visita à exposição fotográfica evocativa do 50º aniversário da Crise Académica de Coimbra de 1969, patente na Biblioteca Municipal da Mealhada.
Fotografia: Intervenção de Rui Marqueiro, presidente da Câmara Municipal da Mealhada, na sessão solene da Assembleia Municipal
Autor: Jornal Frontal
