Quarta-feira, 04 de Setembro de 2019

Manuel Júlio aposta na cozinha tradicional portuguesa há 89 anos

Manuel Júlio aposta na cozinha tradicional portuguesa há 89 anos

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Manuel Júlio aposta na cozinha tradicional portuguesa há 89 anos

O Restaurante Manuel Júlio completa este ano 89 primaveras. O negócio familiar, que deu vida a Santa Luzia (Barcouço), está […]

O Restaurante Manuel Júlio completa este ano 89 primaveras. O negócio familiar, que deu vida a Santa Luzia (Barcouço), está agora nas mãos da terceira geração. Aposta, desde 1930, na cozinha tradicional portuguesa.

Reza a história que os bairradinos Guilhermino Silva e Maria Ferreira Rama, depois de uma curta estadia no Brasil, construíram o Manuel Júlio, num terreno herdado. Na época, o negócio foi registado com o nome “Fundadora de Santa Luzia”, mas o povo atribuiu-lhe outra designação: “Casa da Dona Marquinhas”. Maria Rama, também conhecida por Marquinhas, era a pessoa que geria o estabelecimento comercial que juntava no mesmo espaço mercearia e casa de pasto. Guilhermino Silva dedicava-se à agricultura, aos animais e ao vinho: os seus produtos tinham como destino a “Casa da Dona Marquinhas”.

Santa Luzia, na época, “não tinha quase nada”, mas a feira bimensal que ainda hoje se realiza nos dias 5 e 19 “já existia”: “era uma feira muito grande, que chamava muita gente de todo o país. Muitos chegavam de comboio: saíam na estação da Pampilhosa e vinham a pé para aqui”. Maria Amélia Silva, representante da segunda geração do Manuel Júlio, recorda-se que a feira era bastante conhecida pela “venda de bois e porcos”.

A Fundadora de Santa Luzia teve sucesso desde o primeiro momento. Era um negócio sem concorrência que “fazia muita falta nesta zona” e que, “aos poucos, foi crescendo”. Chegou a incluir uma adega e uma pensão e “deu trabalho a muita gente”.

Guilhermino Silva e Maria Ferreira Rama tiveram seis filhos. Maria Amélia Silva, a mais nova, foi “a segunda pessoa a nascer em Santa Luzia”. Cedo se habituou a ver os pais e os irmãos a “trabalhar muito” e cedo começou a ajudá-los. Terminou a 4.ª classe (hoje 4.º ano) “com distinção”, aprendeu a costurar na Mealhada e depois foi instrutora de “cortes e bordados” da marca Singer, em Coimbra. Quando casou com o conimbricense e mecânico Manuel Júlio Carvalho, teve de deixar o emprego, porque só aceitavam “instrutoras solteiras”. Em Santa Luzia, onde ficou a morar com o marido, ainda ministrou um curso de costura. Quando o primeiro filho nasceu, dedicou-se mais ao negócio da mãe.

Ainda a primeira geração era viva quando a Casa da Dona Marquinhas passou para as mãos de Maria Amélia, também conhecida por Lilé. “Na altura das partilhas, os meus irmãos fizeram questão que eu ficasse com a casa. Eu não queria porque sabia que isto era uma prisão, mas acabei por aceitar”, conta, tendo agora a certeza de que estava certa.

“O cliente tem sempre razão”

Porque os pais já tinham “uma idade avançada”, Lilé encontrou o negócio “fraquinho” e resolveu fazer melhorias, deixando para trás a pensão. Pediu um empréstimo bancário de “400 contos” (cerca de dois mil euros) e renovou o espaço. O marido, que viria a falecer por doença pouco tempo depois, com 46 anos de idade, alterou o nome do negócio para “Manuel Júlio”. Quando as obras terminaram, Lilé, com 44 anos de idade, estava viúva e tinha dois filhos. Com o “apoio moral da família”, seguiu em frente, dedicando a vida aos descendentes e ao restaurante. “Trabalhava de noite e de dia, sacrifiquei-me muito, mas consegui fazer desta casa um bom restaurante”, diz com orgulho Maria Amélia, agora com 85 anos de idade. “Dedicação, amizade pelos clientes, simpatia e boa vontade” explicam o sucesso alcançado por Lilé, que considera que “o cliente tem sempre razão”. Nas suas mãos, como outrora, a casa continuou a apostar na cozinha tradicional portuguesa. Cabrito foi – e é – o prato emblemático.

O Restaurante Manuel Júlio tem hoje quatro sócios: Lilé, o filho João e os dois netos, descendentes do outro filho que já faleceu. João Paulo Carvalho é o sócio gerente do restaurante há 33 anos. Ainda pensou em ingressar no ensino superior para seguir Direito, mas, como não entrou “logo à primeira”, acabou por “esfriar a vontade” e seguir as pisadas da mãe, que acompanhou desde a infância.

Com a terceira geração, em 1994, após um incêndio, a casa voltou a ser alvo de obras, de melhoramento e de aumento do espaço. A ementa é também agora mais diversificada, mantendo, no entanto, pratos que já existiam na primeira geração. “Inovámos, mas demos continuidade ao trabalho de excelência que a minha mãe nos transmitiu”, explica João Carvalho, acreditando que haverá uma quarta geração – “através de filhos e sobrinhos” – a querer dar seguimento à casa.

Segundo João Carvalho, ir almoçar ou jantar ao Manuel Júlio é já “uma tradição em muitas famílias”: “primeiro vieram os pais, que depois trouxeram os filhos e agora são os netos a trazer os avós”. Este ir e voltar faz com que os clientes se sintam em casa e se tornem “nossos amigos”.

Mealhada

Autor: Jornal Frontal

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