Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026 às 16:32

Graça e Iain no Caramulo Motor Festival 2026: quatro décadas entre motores e estrada

Graça e Iain no Caramulo Motor Festival 2026: quatro décadas entre motores e estrada

@Fernando Simões

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Graça e Iain no Caramulo Motor Festival 2026: quatro décadas entre motores e estrada
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Graça e Iain no Caramulo Motor Festival 2026: quatro décadas entre motores e estrada

Para o casal, o G.N. Vitesse é mais do que uma peça histórica

Há encontros que acontecem por acaso e há outros que parecem destinados a mudar
uma vida.

O de Graça Cardoso e Iain Stewart aconteceu na Figueira da Foz, na Páscoa de 1982. Graça é figueirense e, nessa altura, trabalhava na Toyota. Ian é escocês, natural de Aberdeen, no nordeste da Escócia. Era mergulhador profissional e trabalhava no sul deFrança.

Nessa Páscoa, decidiu viajar de mota até Portugal. Saiu de Marselha, passou por Lisboa e seguiu para a Figueira da Foz, onde tinha um amigo.

A viagem, porém, não correu totalmente como previsto. A pequena Yamaha que conduzia começou a dar problemas e Ian procurou um local onde pudesse tratar da mota. Foi
assim que entrou na Toyota onde Graça trabalhava.

E foi aí que se conheceram.

Graça era rececionista e também trabalhava na área das vendas. Ian precisava de ajuda com a mota. A conversa aconteceu naturalmente, mas havia uma circunstância que tornava aquele primeiro encontro pouco provável: Graça tinha namorado.

Por isso, naquele momento, ficou apenas uma amizade.

Durante os quatro anos seguintes, Ian regressou várias vezes a Portugal. Mantiveram o contacto através de cartas, telefonemas e visitas. Encontravam-se, saíam com amigos e iam construindo uma relação de amizade que, apesar das tentativas de Ian para se aproximar, parecia não querer ultrapassar essa fronteira.

Até que chegou Paris.

Graça tinha planeado uma viagem à capital francesa. Ian soube que ela estaria lá e decidiu ir também.

«Eu fui para Paris, ele veio para Paris, e desde aí tudo mudou», recorda Graça.

A partir desse momento, a história ganhou outro rumo. Depois de Paris, Graça viajou até à Escócia para conhecer a família de Iain, em Aberdeen. O encontro que tinha começado por uma mota avariada na Figueira da Foz transformava-se numa vida a dois.

Hoje estão casados há quase quarenta anos.

Não tiveram filhos, por opção, mas construíram uma vida feita de viagens, animais, amigos e, sobretudo, de paixões comuns.

Uma paixão pelos motores que já vinha de longe

A ligação de Graça aos automóveis, porém, não começou com Ian.

«Eu sempre gostei de carros e de motas», conta.

Desde criança que os motores faziam parte do seu imaginário. Enquanto outras meninas brincavam com bonecas, Graça preferia carros e motas. Recorda, com humor, que recebeu uma boneca de uma tia, mas não era propriamente aquilo que a fascinava.

«Eu era um bocado rapazola.»

Na Toyota da Figueira da Foz, essa paixão encontrou um ambiente onde podia crescer. E havia ainda o Rally de Portugal, que trazia à região pilotos, equipas e toda uma comunidade ligada ao automobilismo.

Graça acompanhava esse universo e teve oportunidade de conhecer algumas das figuras ligadas à competição.

Os automóveis passaram, assim, a fazer parte da sua vida muito antes de se tornarem uma paixão partilhada com Ian.

Uma vida entre Portugal, a Escócia e o mundo

Depois do casamento, Graça mudou-se para o Reino Unido, passando aí a viver com Iain.

A vida profissional do escocês continuou ligada ao mar e, posteriormente, à indústria petrolífera. A sua carreira levou-o a trabalhar em diferentes países e a passar longos períodos fora.

Viajar tornou-se uma parte natural da vida dos dois.

Hoje, já aposentados, podem finalmente escolher com maior liberdade onde querem estar e aquilo que querem fazer.

«Os dois aposentados, fazemos o que queremos», diz Graça.

E é precisamente isso que continuam a fazer.

Viajar, acompanhar a competição, participar em encontros de automóveis e motas e, sobretudo, continuar a alimentar uma paixão que os acompanha há décadas.

Ian gosta particularmente da competição.

«Ele adora a competição, carros e motos», conta Graça.

Ela partilha esse entusiasmo pelos motores, pelas máquinas e pelo ambiente que se cria em torno dos grandes encontros automóveis.

Ao volante do G.N. Vitesse no Caramulo

Foi essa paixão que os trouxe novamente em 2026 ao Caramulo Motor Festival.

Vieram participar, ao volante de um automóvel com quase um século de história: um G.N. Vitesse de 1921.

Foi nesse contexto que os encontrei.

Entre automóveis históricos ou de ultimo modelo, motores, pilotos e participantes, Graça e Iain estavam integrados no próprio espetáculo do festival, vivendo a paixão pelos automóveis como protagonistas.

E foi precisamente o G.N. Vitesse que me levou a querer conhecer melhor a história daquele casal.

1921 G.N. Vitesse — uma máquina com história

A G.N. foi criada por H.R. Godfrey e Archie Frazer-Nash, que se conheceram em 1905, quando eram estudantes de Engenharia, ambos com 18 anos.

Em 1909, em Londres, construíram o seu primeiro veículo, um ciclocarro G.N.

A marca viria a tornar-se num dos principais fabricantes britânicos de ciclocarros, apostando em veículos leves e desportivos, geralmente de dois lugares. Os motores utilizados eram principalmente V-twin Peugeot, J.A.P. ou G.N.

O G.N. Vitesse foi introduzido em 1921 como um modelo de alto desempenho. Com um chassis muito leve e transmissão por correntes, apresentava as características próprias dos ciclocarros da época e atingia uma velocidade máxima de cerca de 112 km/h.

O sucesso dos ciclocarros, contudo, foi relativamente breve. Em 1923, a produção da G.N. cessou.

Os seus fundadores seguiram então caminhos diferentes. Archie Frazer-Nash continuou ligado à construção de automóveis desportivos, enquanto H.R. Godfrey esteve associado à criação da H.R.G., dedicada à construção de automóveis desportivos e de competição.

É, portanto, um automóvel que transporta consigo uma história própria — uma história de engenharia, velocidade e competição — e que, quase cem anos depois, continua a encontrar espaço nas estradas e nos grandes encontros de automóveis históricos.

Uma paixão que continua em movimento

Para o casal, o G.N. Vitesse é mais do que uma peça histórica.

É uma máquina para conduzir, para participar e para continuar a viver a paixão pelos automóveis.

E talvez seja essa a diferença entre admirar um automóvel histórico e realmente fazer parte da sua história.

No Caramulo Motor Festival 2026, Graça e Iain não estavam simplesmente a olhar para o passado. Estavam, ao volante de um G.N. Vitesse de 1921, a dar-lhe presente.

Quase quarenta anos depois de Paris, continuam a viajar juntos. Mudaram os países, as profissões, os automóveis e a própria vida, mas algumas paixões permaneceram.

Hoje têm tempo para fazer aquilo de que gostam.

E fazem-no juntos.

No Caramulo, encontrei-os felizes, muito comunicativos, ao volante de uma máquina com mais de cem anos de existência, mas também encontrei algo que talvez seja ainda mais raro: uma história de amor que, passadas mais de quatro décadas, continua em movimento.

Porque há histórias que, tal como certos automóveis, foram feitas para continuar na estrada.

Fotografias : Fernando Simões

Autor: Fernando Simões

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