Quarta-feira, 04 de Setembro de 2019

Este rapazito tem lábio para trompete

Este rapazito tem lábio para trompete

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Este rapazito tem lábio para trompete

Natural de Barcouço, Luís Martelo vive em Inglaterra. Tinha 25 anos quando decidiu arriscar: partiu sozinho, “de mochila às costas, […]

Natural de Barcouço, Luís Martelo vive em Inglaterra. Tinha 25 anos quando decidiu arriscar: partiu sozinho, “de mochila às costas, praticamente vazia”, e 20 euros no bolso. “Vim em busca de sonhos, de um novo recomeço, de uma vida melhor”, recorda o músico português que nasceu na Associação Filarmónica Lyra Barcoucense, que este ano completou cem anos.

Ainda não sabia escrever quando recebeu o primeiro instrumento musical: uma “mini concertina” que o “tio Manuel” lhe ofereceu numa festa: “pintaram-me um bigode à Quim Barreiros com um pedaço de carvão retirado da lareira, meteram-me um boné antigo do meu avô e lá andei eu a fazer espetáculo para a família”. Desde cedo, Luís Martelo mostrou ter “inclinação para a música” mas a “ligação propriamente dita” começou quando, por indicação dos pais, entrou na escola da Filarmónica Lyra Barcoucense – “a base do que sei e do que sou na música” e uma casa “onde se formaram grandes músicos”: “o Sr. Sá era o maestro e o Sr. Quim, o contramestre”. Tinha sete anos.

Aos oito, integrou a banda com o instrumento clavicorne: “eu adorava tocar. Como era o elemento mais pequenino da banda, nas festas, as pessoas de idade vinham ter comigo e davam-me sempre carinho. Também cheguei a receber umas moedas para comprar um doce”. Por esta altura, Luís Martelo queria ser paleontólogo quando fosse “grande”. O desejo começou a mudar quando conheceu o novo maestro da filarmónica, Fernando Vidal, “pessoa a quem devo tanto ou quase tudo na música”: “foi este senhor, grande músico e grande homem, que olhou para mim no primeiro ensaio e disse ‘este rapazito tem lábio para trompete’”. Estava certo.

Até chegar a Inglaterra (em 2014), a vida de Luís Martelo deu muitas voltas. As mais marcantes foram a passagem pelo Exército Português, enquanto militar na especialidade Música, entre 2007 e 2010, e a aposta no rap, que continuou a crescer em Londres, primeira cidade inglesa onde viveu. A adaptação ao país estrangeiro foi “um pouco dura”. Começou por trabalhar num restaurante no centro de Londres: “depois de estar estável, regressei ao rap, montei o meu estúdio caseiro e comecei a fazer algum sucesso”. Chegou a conciliar a música com outros empregos.

“Ser emigrante é sofrer de saudade”

Em 2018, cumpriu o “sonho” de “recuperar” a sua “verdadeira profissão”: “concorri a uma orquestra inglesa e entrei”. Mudou-se para Bristol, no sudoeste da Inglaterra, e hoje dedica-se profissionalmente apenas à música: “sou trompete principal da Taunton Concert Band, ‘1.º Lead Trompete’ da Deane Big Band e ‘solo cornet’ da Phoenix Brass Band”; “também toco regularmente com os The Big Noise Street Band e faço trabalhos em regime freelance com várias bandas e em estúdio”; “dou aulas particulares de trompete, on-line e presencialmente”. Em Inglaterra, Luís Martelo também se dedica à família. Conheceu uma portuguesa, com quem casou. Tem três filhos e aguarda a chegada de outro, prevista para novembro.

Luís gosta “muito” de viver em Inglaterra – “estou super integrado” – e não tenciona regressar a Portugal num futuro próximo. No Reino Unido, reprova “o clima escuro, frio e chuvoso”, a comida, a ausência de “humor” e o elevado preço da habitação; elogia a “mentalidade”, a valorização do património histórico (“muito bem cuidado e usado para algo realmente útil”) e o “salário mais elevado”.

Sempre que pode, regressa às origens para aliviar a saudade de familiares, de amigos, de sítios onde cresceu, de tradições, da praia, da comida e da “paz que o concelho ainda mantém, mesmo com o desenvolvimento que vai tendo”. Luís Martelo define saudade como “uma vontade que, por mais que seja alimentada, continua faminta”. Ser emigrante – considera – é “sofrer de saudade”: “é acordar de manhã com a força do Rambo e, à noite, deitar a cabeça na almofada com as lágrimas de uma criança que anseia pelo carinho da mãe. E repetir este ciclo diariamente, enquanto aguentar”. A música e a família que constituiu no Reino Unido têm-no ajudado a “curar as feridas e as dores da saudade”.

Luís Martelo, agora com 30 anos, tem o sonho de ser um “orgulho” para aqueles que sempre acreditaram no seu trabalho e uma “surpresa” para os que dele duvidaram. Na música, quer alcançar novas “metas” sem “nunca perder a humildade”.

Bairrada

Autor: Jornal Frontal

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