Sexta-feira, 03 de Maio de 2019

Demolição parcial da fachada nascente da Fabrica das Devesas é ponto único da reunião de câmara extraordinária

Demolição parcial da fachada nascente da Fabrica das Devesas é ponto único da reunião de câmara extraordinária

Região

Demolição parcial da fachada nascente da Fabrica das Devesas é ponto único da reunião de câmara extraordinária

A demolição de parte da fachada nascente da Fábrica das Devesas, localizada na Vila da Pampilhosa, foi o mote para […]

A demolição de parte da fachada nascente da Fábrica das Devesas, localizada na Vila da Pampilhosa, foi o mote para a coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada” solicitar uma reunião de executivo de cariz extraordinário. O pedido foi aceite por Rui Marqueiro, presidente da Câmara Municipal da Mealhada, que acabou por agendá-la para dia 18 de abril, onde Hugo Silva, líder da Coligação, defendeu que o processo de demolição da antiga fábrica de cerâmica pampilhosense “carece de informação dada no local certo”.

Consciente de que a decisão, tendo sido tomada na esfera da Proteção Civil Municipal, apenas dependeria de Rui Marqueiro, enquanto respetivo comandante, Hugo Silva diz ter visto “com a maior estranheza que a Coligação não tenha sabido de nada, uma vez que houve reunião na segunda-feira, dia 8 de abril”. O vereador da oposição acrescentou ainda que “seria importante que houvesse alguma partilha sobre o destinado dado ao património histórico municipal, que também nos incluiu”.

Demolição foi feita por “razões de segurança”

A Hugo Silva o presidente da Câmara Municipal da Mealhada responde que a decisão da demolição foi tomada “por razões de segurança” e elenca aos vereadores as possíveis consequências que poderiam advir da ausência de uma tomada de decisão: “poderia acontecer que uma pessoa fosse atingida, uma derrocada que projetasse a catenária ou que causasse o descarrilamento de um comboio”. ´

Perante o esclarecimento de Rui Marqueiro, Hugo Silva questiona a razão pela qual foi feita apenas agora uma intervenção no local e o edil explicou: “nós temos estado a monitorizar o espaço”. O autarca recordou que “a Fábrica das Devesas está em autodestruição e quando foi comprada já estava em ruínas”, algo que terá motivado, segundo Rui Marqueiro, outras intervenções: “não é a primeira vez que a Câmara lá intervém”, afirma. O edil garante que foram feitas “várias visitas à fábrica”, a partir das quais o executivo constatou que “a ‘Leslie’ veio complicar” o estado das infraestruturas do antigo núcleo industrial das Devesas.

“A Fábrica das Devesas está em autodestruição e quando foi comprada já estava em ruínas”, Rui Marqueiro, presidente da Câmara Municipal da Mealhada

Rui Marqueiro referiu ainda que após ter tido acesso a um relatório das Infraestruturas de Portugal sobre o espaço ficou “absolutamente convencido de que tínhamos tomado a decisão certa”. Não descartando que a nível da arqueologia industrial “há ali coisas que podem ser preservadas”, o edil garante que está a ser feito um longo inventário de peças.

Hugo Silva, depois de ouvir as explicações dadas pelo líder do executivo, quis saber de quem partiu a iniciativa de demolir parte da fachada nascente da Fábrica das Devesas. O autarca assumiu prontamente a responsabilidade dessa decisão.

Questionado ainda sobre a rapidez da avaliação do espaço por parte das Infraestruturas de Portugal, Rui Marqueiro esclareceu que a celeridade se deveu à constatação da fragilidade das infraestruturas da Fábrica das Devesas como “perigo eminente” para a segurança pública. “As Infraestruturas de Portugal não podiam ter outra atitude perante um possível crime e um dano sobre um bem público”, afirmou Rui Marqueiro.

O líder da Coligação quis também saber quais os termos do protocolo entre a autarquia e as Infraestruturas de Portugal quanto às medidas em relação à Fábrica das Devesas. Rui Marqueiro explica: “o que acontece é o seguinte, se amanhã as Infraestruturas de Portugal me dissessem que tinha que demolir, eu demoliria. Se os senhores não consentissem, eu, na qualidade de comandante da Proteção Civil Municipal, mandaria demolir”.

Baseado num estudo realizado por Avelãs Nunes, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e considerado o maior especialista em arqueologia industrial, Rui Marqueiro afirma que o que tem importância histórica “é a zona do forno, não é a fachada”.

“Nunca ninguém me ouviu prometer mais do que um parque de estacionamento poente”, Rui Marqueiro

No que se refere à temática da preservação histórica, Hugo Silva fez menção a algumas reuniões públicas, nas quais diz que “um conjunto de pessoas se lembra de ouvir falar na musealização do espaço”. À afirmação do vereador da oposição Rui Marqueiro responde: “nunca ninguém me ouviu prometer mais do que um parque de estacionamento poente”. Obra que será feita mediante a intervenção das Infraestruturas de Portugal na estação de comboios da Pampilhosa, possibilitando, posteriormente “aos cidadãos apanhar o comboio e deixar o carro devidamente estacionado”. A este propósito, Rui Marqueiro lembra que “desde 2016 que a autarquia está em “guerra” com as Infraestruturas de Portugal para melhorar a estação da Pampilhosa, por constituir um perigo”, lembra Rui Marqueiro, afirmando que “a estação da Pampilhosa é muito mais importante do que a da Mealhada e está menos bem servida do que esta”.

Ainda sobre os compromissos políticos que tem definidos para a Pampilhosa, Rui Marqueiro lembra: “temos dois projetos que eu considero absolutamente importantes – a revitalização da Baixa da Pampilhosa e do Chalet Suíço”.

Sónia Branquinho, vereadora da Coligação, retoma ao tema central da reunião de câmara extraordinária afirmando que a demolição de parte da fachada nascente da Fábrica das Devesas “é um atentado à cultura de um povo”. A vereadora reclamou ainda a ausência de informação à população sobre a referida tomada de decisão, lamentando que se “emitam comunicados para tudo e para nada” e que nada tenha sido veiculado sobre esta situação.

“É um atentado à cultura de um povo”, Sónia Branquinho, vereadora da coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada”

Rui Marqueiro reiterou, face às afirmações da vereadora: “fizemos o que tínhamos que fazer”. Porém Sónia Branquinho insiste na existência de outros planos para as infraestruturas da Fábrica das Devesas, “no manifesto das eleições para a Junta de Freguesia aparece a promessa de reabilitação do espaço”, e questiona o motivo da alteração de prioridades.

“Em todos os casos em que nos deixaram um projeto nós cumprimos, mas há questões de prioridade”, refere Rui Marqueiro, lembrando as obras nos dois centros escolares.

A vereadora do “Juntos pelo Concelho da Mealhada”, manifestamente insatisfeita com o atual estado da histórica fábrica de cerâmicas da Pampilhosa, culpa a autarquia de investir na compra da Quinta do Murtal, na vez de preservar o património que está a cair. Uma culpa que Rui Marqueiro rejeita, afirmando: “nós ainda não gastámos dinheiro nenhum com a Quinta do Murtal”. O autarca refere ainda, a este propósito, que além de naquela casa ter vivido “o senhor mais ilustre do concelho das últimas duas décadas”, a Quinta do Murtal representa um investimento na expansão da cidade. “A Mealhada tem dois grandes problemas e virtudes, é atravessada pelo IC2 e pela linha do comboio” ou seja “ou cresce para a reserva ecológica, onde não é permitido, ou cresce para onde ainda há solo urbano”. “Nós não fazemos o que queremos, fazemos o que podemos”, conclui Rui Marqueiro.

Na reta final da reunião, Adérito Duarte, vereador da coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada” disse: “acho que muitas vezes nos é escondida informação relevante”, queixando-se que a “informação nos chega em cima do fim-de-semana”.

“Acho que muitas vezes nos é escondida informação relevante”, Adérito Duarte, vereador da coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada”

Aos argumentos proferidos por Adérito Duarte, a vereadora municipal Arminda Martins, responsável pelo pelouro das obras públicas, responde: “nunca vos neguei informação”. A vereadora aproveitou também o momento para esclarecer que, ao longo de todo o processo relativo à Fábrica das Devesas, foi estabelecido contacto com a presidente da Junta de Freguesia da Pampilhosa, via telefone e correio eletrónico, garantindo que “não houve qualquer tipo de fuga de informação ou tentativa de isolamento político”.

Hugo Silva voltou a questionar o executivo liderado por Rui Marqueiro sobre o motivo pelo qual desde 2011, ano da compra da Fábrica das Devesas, nada foi feito para conservar o espaço.

Arminda Martins respondeu ao vereador da coligação, dizendo que “o dono do imóvel (a autarquia) respondeu à situação atual responsavelmente” e lembrou “não foi a primeira vez. Em 2004 houve fachadas que ruíram e que caíram sobre um carro e uma carruagem”. A vereadora vai mais atrás no tempo, reportando-se a dezembro de 2013, altura na qual foi tomada uma “decisão sobre o processo de contenção das fachadas da fábrica, que determinava a remoção imediata das chapas do telhado”. Decorrente da referida decisão, a vereadora lembra que “foram retiradas chapas do telhado da fábrica por duas vezes, tanto em 2014 como em 2017, por força, inclusivamente, de uma demolição proveniente de uma queixa”.

Nuno Canilho, vereador da Cultura, usou também da palavra para deixar claro que “em 2004, a Câmara Municipal da Mealhada mandou fazer um estudo ao professor Avelãs Nunes sobre o interesse da fábrica, no plano histórico”. Nesse estudo, já referido por Rui Marqueiro nesta reunião, Nuno Canilho refere que o especialista em arqueologia industrial “atribui eventual interesse de musealização ao forno”, contrariamente a todo o resto do edificado. O vereador da cultura acrescenta ainda que Avelãs Nunes sugere no respetivo estudo “que todo o resto deve ser desmantelado, inclusivamente o Bloco B (correspondente aos escritórios)”. Quanto “aos baixos-relevos, à peça da cumeada e aos azulejos”, Nuno Canilho diz ainda que Avelãs Nunes recomenda “retirar as peças para posterior colocação noutra construção que se possa fazer ali”.

Terminadas as explicações dos dois vereadores, Adérito Duarte questiona novamente o executivo sobre a ausência de informação sobre a demolição parcial da fachada nascente da Fábrica das Devesas na anterior reunião de câmara (de 8 de abril), ao que Nuno Canilho responde: “nós, honestamente, não estávamos à espera do alarido que foi criado”. “Os senhores imaginem o alarido que seria pela morte de alguém”, complementa Rui Marqueiro, “nessa altura chamar-me-iam criminoso”, conclui.

Mealhada

Autor: Jornal Frontal

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