Sábado, 12 de Setembro de 2026

Quando se perde a vontade de agir – Parte 2

Quando se perde a vontade de agir – Parte 2

Opinião

Quando se perde a vontade de agir – Parte 2

Esta é uma das dimensões mais profundas da acídia : o perigo de deixar tudo para amanhã

Um exemplo muito simples. Pensemos numa pessoa que, todos os dias, chega a casa depois do trabalho. Sabe que deveria dedicar algum tempo à família, conversar com a esposa, brincar com os filhos ou visitar um familiar idoso que vive sozinho. No entanto, quando chega a casa, pega no telemóvel e diz a si próprio: «Só vou descansar cinco minutos». Os cinco minutos transformam-se numa hora. Depois pensa: «Hoje estou muito cansado. Amanhã faço isso.» No dia seguinte, acontece a mesma coisa. Passam semanas e ela não deixou de amar a família, não decidiu conscientemente abandonar ninguém, mas, pouco a pouco, começou a escolher sempre aquilo que exigia menos de si.

Aqui encontramos algo importante, pois nem sempre fazemos mal porque queremos fazer o mal, por vezes fazemos o mal porque deixamos de fazer o bem que poderíamos fazer. Esta é uma das dimensões mais profundas da acídia. O perigo de deixar tudo para amanhã. Aliás, o «amanhã» pode tornar-se uma palavra perigosa. O problema é que a vida acontece hoje. Quando adiamos constantemente aquilo que sabemos ser importante, não estamos simplesmente a perder tempo, estamos a formar o nosso carácter. Cada escolha repetida constrói, pouco a pouco, a pessoa que nos tornamos.

A preguiça diz: «Não vale a pena esforçar-te agora.» A acídia pode ir ainda mais longe e dizer: «Aquilo que procuras nem sequer vale a pena.» É por isso que a acídia é tão perigosa. Porque não ataca apenas a nossa capacidade de trabalhar, pode atacar o próprio sentido das coisas. Então, como combater a preguiça e a acídia

A primeira coisa é reconhecer o problema sem procurar desculpas. Não é necessário acusar-nos constantemente nem viver com culpa, é necessário simplesmente ser honestos connosco próprios. Depois, é preciso começar pelas pequenas coisas, isto é, se temos uma tarefa para fazer, fazemos a primeira parte; se precisamos de pedir desculpa, damos o primeiro passo; se estamos afastados de alguém, fazemos uma chamada…

Não devemos esperar sentir vontade para começar. Muitas vezes, a vontade nasce depois de começarmos. Mais, é um erro pensar: «Quando tiver vontade, faço.», mas, acontece precisamente o contrário, pois fazemos, e depois recuperamos a vontade. A disciplina ajuda a vencer a preguiça, mas a acídia precisa de algo mais: precisa de recuperar o sentido. Quando percebemos por que razão vale a pena fazer alguma coisa, o esforço torna-se diferente.

Um pai não brinca com o filho apenas porque tem obrigação, faz isso porque ama o filho. Uma pessoa não visita um familiar doente apenas porque «tem de ir.» Vai porque aquela presença tem valor. Alguém não trabalha apenas para cumprir um horário, mas porque sabe que o seu trabalho pode servir os outros e construir alguma coisa. O sentido transforma o esforço.

Se a preguiça pode ser vencida pela disciplina, a acídia precisa também de esperança. Quando uma pessoa acredita que nada vale a pena, torna-se muito difícil começar. Se pensa que não pode mudar, deixa de tentar. Se acredita que os seus esforços não têm significado, qualquer esforço parece inútil. Por isso, combater a acídia é recuperar a capacidade de acreditar que as pequenas ações têm valor.

Uma palavra pode mudar o dia de alguém, um pedido de desculpa pode reconstruir uma relação, uma visita pode aliviar uma solidão, uma pequena tarefa cumprida pode devolver-nos confiança, uma oração pode abrir novamente um espaço de silêncio dentro de nós, um gesto de generosidade pode recordar-nos que não vivemos apenas para nós próprios. Não precisamos de transformar a nossa vida inteira num único dia, precisamos apenas de deixar de adiar continuamente o próximo passo.

A preguiça e a acídia parecem, à primeira vista, problemas pequenos. Afinal, quem nunca teve vontade de ficar na cama, adiar uma tarefa ou procurar uma distração? Mas, quando se tornam hábitos, podem afastar-nos lentamente daquilo que realmente importa. A preguiça faz-nos fugir do esforço e e acídia pode fazer-nos perder o gosto pelo próprio bem.

Por isso, vencer a acídia não significa viver permanentemente ocupado. Significa aprender a distinguir o descanso da fuga, o silêncio da apatia, a tranquilidade da acomodação. Implica voltar a perguntar: «O que é verdadeiramente importante na minha vida e o que estou a fazer para não o perder?» Talvez a resposta comece com uma coisa muito simples que estamos a adiar há demasiado tempo. Porque, no fim, vencer a acídia pode ser simplesmente levantar-se, deixar de adiar e voltar a caminhar na direção do bem.

Leitura

Autor: Padre Rodolfo Leite

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