Terça-Feira, 04 de Agosto de 2026 às 09:30

Quando o Mundo Deixou de Olhar

Quando o Mundo Deixou de Olhar

Opinião

Quando o Mundo Deixou de Olhar

Quando levantei os olhos do papel, a carruagem parecia suspensa num estranho silêncio moderno.

O metro do Porto, entre os Combatentes e São Bento, costuma ser, às quintas-feiras, o cenário perfeito para o automatismo do fim do dia. Na ultima viagem, a caminho do comboio urbano das 23h50 para Aveiro — aquele que, quase sempre, parte da linha 2, junto ao túnel —, dei por mim numa posição inesperada: a de intruso. Tinha nas mãos e lia um livro sobre Vivian Maier, a ama e fotógrafa que captou a almadas ruas muito antes de existirem filtros digitais. Alguém com quem me identifico quando, em companhia de mim próprio, caminho pela cidade do Porto na procura de
momentos.

Quando levantei os olhos do papel, a carruagem parecia suspensa num estranho silêncio moderno. À minha volta, uma sucessão de cabeças inclinadas e rostos iluminados pelo brilho azulado dos ecrãs. Uma espécie de hipnose coletiva, onde cada dedo deslizava mecanicamente à procura do próximo vídeo, da próxima notificação, do próximo estímulo.

Foi então que percebi o paradoxo. Quem estuda fotografia é treinado para observar o mundo. Mas o que acontece quando o mundo deixa de olhar?

Naquela carruagem, eu era o único desalinhado. O único que não fazia scroll. E que fique claro: não sou tecnofóbico nem um nostálgico do século passado. Pelo
contrário. Sempre vivi rodeado de tecnologia, trabalho com ela, fotografo, valorizo-a e reconheço o quanto transformou e transforma as nossas vidas. Mas também sei que
até os sistemas mais sofisticados precisam de pausas para não sobreaquecerem. A tecnologia é extraordinária, mas também ela merece férias.

Desligar o ecrã durante alguns minutos não é rejeitar o progresso. É oferecer ao cérebro aquilo que talvez seja o maior luxo da modernidade: tempo para pensar sem
interrupções. Há uma urgência quase cómica na forma como fugimos do tédio. Sempre que a vida nos oferece uma pausa — no metro, na fila do supermercado ou numa semana de férias —, reagimos como o Lucky Luke perante um duelo. Só que, em vez de sacarmos do revólver, sacamos do telemóvel. E, quase sempre, disparamos scrolls em todas as
direções.

Deus nos livre de passarmos dois minutos sozinhos com os nossos pensamentos. Ainda corremos o risco de imaginar a vida das pessoas sentadas à nossa frente, de reparar na luz e na paisagem que entram pela janela ou, quem sabe, de nos lembrarmos onde deixámos o último guarda-chuva. Insistir na leitura tornou-se quase um pequeno ato de rebeldia. Uma forma de
resistência silenciosa. Lembrei-me então de O Leitor do Comboio, de Jean-Paul Didierlaurent. No romance, um homem transforma a viagem diária de comboio num pequeno refúgio de leitura. 

Naquela noite, não lia para os outros como ele; limitava-me a ler para mim. Mas, por instantes, senti-me personagem da mesma história.
Mas atenção: esta não é uma crítica cega ao mundo digital. Existem criadores de conteúdo extraordinários que divulgam conhecimento, arte e ideias que enriquecem
verdadeiramente quem os acompanha. O problema não são eles.

O problema está na forma como consumimos tudo indiscriminadamente. Entre um excelente documentário produzido por um criador independente e o milésimo vídeo de alguém a fingir que tropeça para conquistar visualizações, o dedo continua a deslizar com a mesma velocidade. Consumirmos sem escolher. Sem mastigar. Sem pensar.

É precisamente aqui que o papel faz a diferença. Um livro não vibra. Não interrompe para anúncios. Não exibe notificações no topo da página. Não tenta convencer-nos de que existe sempre qualquer coisa mais interessante a seguir.

Ler obriga os neurónios a fazerem o trabalho sozinhos. Obriga-nos a imaginar, a interpretar, a construir imagens. Dá-nos novamente o controlo do nosso próprio ritmo.

Aproveitar estes pequenos intervalos para ler não é um gesto elitista nem um preciosismo intelectual. É uma forma de legítima defesa mental e necessária. Se as férias servem para desligar o corpo do trabalho, talvez também devam servir para voltar a ligar a cabeça a outra frequência.

Deixar o telefone esquecido no fundo da mochila e viajar com um livro nas mãos oferece-nos uma oportunidade rara: perdermo-nos para voltarmos a encontrar-nos.

Naquele percurso entre os Combatentes e São Bento percebi uma coisa simples. O tédio não é um defeito da vida moderna. É o terreno onde a criatividade começa a
crescer. Talvez o melhor upgrade que possamos fazer neste tempo de verão não esteja na próxima atualização do telemóvel. Talvez seja apenas trocar, durante seis paragens de metro, os píxeis pela textura de um livro, ou de uma boa revista ou simplesmente olhar em redor e ver.

Porque, às vezes, a maior inovação continua a ser levantar os olhos do ecrã.

Fotografia: Fernando Simões

Leitura

Autor: Fernando Simões

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