Quando a tecnologia não basta
Talvez devêssemos falar um pouco mais de inteligência humana, daquela que não se programa
Vivemos tempos em que quase tudo se resolve através de um ecrã. Inteligências artificiais, assistentes virtuais, menus automáticos, aplicações e algoritmos prometem rapidez, eficiência e autonomia. E, na verdade, trouxeram-nos inúmeras vantagens. Não sou, nem de longe, um adversário da tecnologia. Utilizo-a diariamente em vários quadrantes e reconheço-lhe um valor inquestionável.
Mas, de vez em quando, acontece algo que nos recorda uma verdade simples: há problemas que só uma pessoa consegue resolver.
No passado domingo, por um lapso induzido pelas indicações do navegador de bordo do meu carro, entrei involuntariamente na via Via Verde de uma portagem da A8 à chegada a Leiria. Quando visualmente percebi o erro, já não havia possibilidade de corrigir a trajetória. Separadores de betão e o trânsito atrás de mim impediam qualquer alternativa, travar e mudar a trajetória .
Durante a viagem tentei com minha mulher obter ajuda através do contacto telefónico da Brisa. Do outro lado encontrei repetidamente uma assistente virtual. Respondeu, repetiu procedimentos, percorreu opções… mas não resolveu o problema. Continuava exatamente no mesmo ponto.
Decidi então dirigir-me às instalações da Brisa na Mealhada. Toquei à campainha e aguardei. Já não esperava encontrar ninguém.
Foi então que aconteceu aquilo que verdadeiramente merece ser contado.
Uma colaboradora, que já tinha terminado o seu turno e seguia no seu automóvel para regressar a casa, reparou que aguardávamos junto ao portão. Podia simplesmente ter continuado viagem. Ninguém a teria censurado. O seu horário tinha terminado.
Mas não foi isso que fez.
Parou. Saiu do carro. Perguntou se precisávamos de ajuda. Ouviu-nos com atenção e voltou atrás para ir buscar o impresso necessário para resolver a situação. Explicou nos o procedimento, tranquilizou-nos e despediu-se com a naturalidade de quem acredita que ajudar alguém faz simplesmente parte da vida.
Foi um gesto pequeno.
Mas foi um enorme gesto de humanidade.
Num tempo em que se fala tanto de inteligência artificial, talvez devêssemos falar um pouco mais de inteligência humana. Daquela que não se programa, não se automatiza e não se substitui por um algoritmo. A que olha para uma pessoa, percebe que precisa de ajuda e decide agir.
Autor: Fernando Simões
