«Poder» ou «Podre»
Há um fenómeno silencioso que atravessa a sociedade atual que é a transformação do poder numa espécie de cosmética
Já o tenho referido várias vezes. Há um fenómeno silencioso que atravessa a sociedade atual que é a transformação do poder numa espécie de cosmética. Não se trata do poder verdadeiro, que nasce da competência, da responsabilidade e da capacidade de servir. Trata-se de um poder de aparência, cuidadosamente construído para ser visto, admirado e invejado.
Muitos crescem e vivem convencidos de que o importante não é ser, mas parecer. Parecer influente, bem-sucedido, indispensável… As redes sociais, a cultura da imagem e a competição permanente alimentam esta ilusão. O poder torna-se um acessório, como uma marca de roupa, um automóvel de luxo ou um perfil impecavelmente editado.
Mas há uma diferença decisiva entre o poder e o poder autêntico. O verdadeiro poder faz crescer os outros, mas o falso poder faz diminuir os outros. É aqui que o jogo de palavras ganha força. Basta um pequeno desvio, uma «mudança de letras», para que o poder se torne podre.
O poder apodrece quando precisa de humilhar para se sentir superior, quando transforma colegas em rivais, subordinados em servos, amigos em instrumentos e pessoas em simples degraus para subir mais depressa. O poder podre vive da comparação permanente, não suporta o brilho alheio, alimenta-se da crítica destrutiva, da manipulação subtil, da exclusão e da exploração das fragilidades dos outros.
Quem exerce este tipo de poder pode até parecer forte, mas, na realidade, revela uma profunda insegurança. Precisa constantemente de confirmar a própria importância através da diminuição de quem o rodeia. Quanto mais procura dominar, mais dependente fica da imagem que construiu de si mesmo.
As consequências são devastadoras! Há trabalhadores que perdem a autoestima porque alguém decidiu fazer da humilhação um método de liderança. Há jovens que desistem dos seus sonhos porque foram ridicularizados por quem ocupava uma posição de influência. Há famílias marcadas por relações onde um dos seus membros utiliza o poder emocional para controlar e dominar. Nenhuma destas formas de poder constrói futuro, mas todas deixam cicatrizes.
O paradoxo é evidente, pois quem vive obcecado pelo poder acaba, muitas vezes, prisioneiro dele, já não escolhe livremente. Explicando melhor, precisa de manter a imagem, de alimentar a reputação e de vencer sempre, e torna-se escravo daquilo que julgava possuir. Pelo contrário, as pessoas verdadeiramente grandes raramente fazem questão de parecer grandes, pois a sua autoridade nasce da coerência, da competência e da confiança que inspiram. Não precisam de levantar a voz para serem ouvidas, nem de humilhar para serem respeitadas.
Talvez seja esta a grande lição para uma geração que tantas vezes confunde visibilidade com valor. O poder não se mede pelo número de seguidores, pelo cargo ocupado ou pela capacidade de impor a própria vontade. Mede-se, sobretudo, pela quantidade de pessoas que florescem ou renascem graças à nossa presença.
No fim, a diferença entre o poder e o poder podre não está apenas nas letras de uma palavra. Está, acima de tudo, na qualidade do coração de quem o exerce. Todo o poder que não serve acaba por apodrecer e tudo o que apodrece deixa de dar vida.
Mais ainda, a grandeza de uma pessoa não se mede pelo lugar que ocupa, mas pela vida que desperta nos outros. Quando o poder nasce da necessidade de ser admirado, acaba inevitavelmente por gerar medo, competição e solidão. Quando, porém, nasce da humildade e da vontade de servir, torna-se fonte de esperança, de confiança e de crescimento.
A sociedade ensina frequentemente que vencer é chegar primeiro, mas a sabedoria da vida mostra-nos que vencer é fazer caminho sem deixar ninguém para trás. A verdadeira autoridade não precisa de se impor, porque é reconhecida naturalmente na coerência, na justiça e na capacidade de cuidar.
No fundo, todos exercemos algum tipo de poder, na família, no trabalho, na amizade ou na comunidade. A questão decisiva não é quanto poder temos, mas o que fazemos com ele. Se a nossa presença faz os outros sentirem-se mais pequenos, algo em nós precisa de ser transformado. Se, pelo contrário, quem se cruza connosco encontra mais coragem, mais dignidade e mais esperança, então o poder cumpriu a sua mais nobre finalidade.
Já agora, talvez seja esta a diferença mais profunda entre dominar e servir: um deixa marcas de medo; o outro deixa sementes de vida.
Autor: Padre Rodolfo Leite
