Oportunidade Perdida
Digerida que começa a estar a rejeição da proposta para que o Município de Mortágua integrasse uma nova empresa intermunicipal […]
Digerida que começa a estar a rejeição da proposta para que o Município de Mortágua integrasse uma nova empresa intermunicipal de gestão das águas residuais, penso ser chegada a altura de me pronunciar sobre o assunto, agora que há bastante mais informação disponível. Esta (in)disponibilidade dos dados em causa terá sido, aliás, a primeira evidência de que algo um pouco estranho se estaria a passar. Pelo que se depreende das posições públicas manifestadas pelos PS e PSD locais, o Presidente Zé Júlio Norte levou a referida proposta a votação no órgão da Câmara, tendo esta sido aprovada pela maioria eleita pelos sociais-democratas com base em pouco ou nenhum conhecimento sobre o que ali estaria efectivamente em causa. Até aqui, tudo longe do que seria esperado normal, como é claro, mas, entretanto, o assunto foi levado à Assembleia Municipal e foi dado seguimento ao espanto. Depois de ter votado a favor na Câmara sem informações disponíveis sobre o negócio, o PSD juntou-se ao PS na rejeição da proposta em sede de Assembleia, após a disponibilização dessas mesmas informações. Ou seja, o que era “bom para os Mortaguenses” e tido inclusivamente como “a única solução” para a realização deste tão importante serviço público, numa lógica intermunicipal, caiu logo por terra mal foram conhecidos os resultados dos estudos entretanto apresentados. Já sabemos como habitualmente funcionam tanto a política como os políticos, mas este não deixa de ser um volte-face muito assinalável.
A argumentação apresentada pelos meus camaradas é intocável, tanto na forma como no conteúdo, já que os números anunciados revelam praticamente tudo, pelo que me cumpre a militante função de a acompanhar sem qualquer tipo de reservas. Até aqui, tudo muito bem, mas uma análise política séria e mais aprofundada tem que conseguir ver mais além de tudo aquilo que nos é possível concluir de forma rápida e sem grandes reflexões. Falta ali qualquer coisa. Falta ali qualquer coisa de muito importante. Escrevi ao Ricardo Pardal (RP) há perto de duas semanas, aproveitando a essência deste preciso momento, que me pareceu determinante para a sua nítida ambição de se recandidatar em 2021 a Presidente da Câmara Municipal de Mortágua. Tendo em conta que vamos mais ou menos a meio deste mandato autárquico, além de também estarmos cada vez mais próximos da eleição seguinte para a Comissão Política Concelhia, o embalo destes acontecimentos políticos podia fazer deste um momento-chave para ele, que poderia contribuir para consolidar a sua afirmação pessoal e política. Para isso seria necessário, a meu ver, que por ele fosse assumida publicamente uma quota assinalável de responsabilidade do partido na criação da empresa Águas do Planalto, que tanta e tão pesada herança deixou ao nosso PS. Dada a natureza dos manifestos publicados, onde se aponta o dedo a “este tipo de actos de gestão”, creio inclusivamente que, por um imperativo de coerência, isso seria lógico, até. Não tenho dúvida que uma tomada de posição dessa espécie seria muito edificante e enobrecedora para o partido e para as suas lideranças, tanto na perspectiva da militância como na de todo o eleitorado mortaguense. Esse poderia ser o tónico ideal para que o RP se pudesse afirmar de vez por si próprio, desamarrando-se de outras figuras e de outro tipo de vínculos históricos que são cada vez mais nefastos para a imagem do partido, e consequentemente para quem o lidera. Oportunidade de ouro perdida. Apesar da hipótese ter sido ventilada por várias pessoas da sua influência, isso não aconteceu, o que prova aquilo que tenho vindo a defender de há uns tempos a esta parte: o RP não faz (mesmo) parte da solução, mas sim do problema. A pesada herança que o partido hoje carrega como um fardo traz também a sua indelével assinatura por baixo. Não reconhecendo um passado do qual é seriamente corresponsável, só mostra mais uma vez que não serve nem poderá servir para liderar os Socialistas de Mortágua, quanto mais todos os Mortaguenses!
Autor: Jornal Frontal
