O «pão» da felicidade
Nestes dias, aproveitando uma viagem mais longa, fui visitar uma família que ficava no caminho. Cheguei na altura em que […]
Nestes dias, aproveitando uma viagem mais longa, fui visitar uma família que ficava no caminho.
Cheguei na altura em que estavam a fazer o pão. As saudações foram rápidas, pois estavam atarefadas. Uma das senhoras, a mais idosa, ia aquecendo o forno, pondo cavacas e mais cavacas para que ficasse bem quente…
– Tem de ser assim, porque depois aproveito para pôr a chanfana!
O marido e a filha tinham estado à volta da massa. O calor daquela «cozinha do forno» era muito! Tirei o casaco e sentei-me.
– Senhor Padre, afaste-se porque fica todo sujo de farinha…!
E lá estavam eles às voltas com a massa, a dividi-la. Diz a mulher mais nova para o homem:
– Ó pai, faça os pães grandes! Olhe que é uma vergonha quando os formos dar!
Mas, o homem nem ligou! Depois de tudo dividido e já com um pedaço na pá para pôr no forno, vem a senhora de mais idade e fazendo uma cruz naquela massa, disse:
“São Clemente te acrescente,
São Mamede te levede,
Deus te ponha virtude
que eu, da minha parte, fiz tudo o que pude.”
A seguir, abriu a mão e com os cinco dedos a tocar a mesma massa, acrescenta:
“Pelas cinco chagas do Senhor, tenhas um bom sabor!”
O ritual repetiu-se várias vezes, até o forno ficar cheio. Entretanto, ficámos à conversa muito tempo, petiscando qualquer coisa. A meio, a senhora de idade abriu o forno para ver como estava a cozedura, mas logo o fechou, pois ainda era cedo. A conversa continuou animada, sobre a vida, os problemas e as alegrias que a fazem! Passado mais um bom bocado, a mesma senhora volta de novo ao forno e diz:
– Por Deus, já está pronto.
Recomeça a azáfama de o tirar para o pôr no cesto. O cheiro era maravilhoso…! Entre o roçar da pá, ouço a voz da mesma senhora a dizer para o marido:
– Este pode ser para a Menina, pois eles são muitos lá em casa.
Referia-se à filha viúva que está a trabalhar e tem três meninos, ficando, por isso, com o pão maior. Depois de tirarem tudo do forno, a senhora de novo fala para dizer:
– Vamos dar um ao senhor Padre.
E aquela mulher, já com perto de 80 anos, pegando num pão, ainda a fumegar, e embrulhando-o num pano, põe-no numa saca e diz-me em tom solene e cheio de orgulho:
– O que mais gosto de dar é o pão que faço. E sabe, senhor Padre, para fazer deste pão é preciso ter fé em Nosso Senhor…! Mas não custa nada a gente dá-lo! O Bom Deus nunca nos faltou!
Contente com o presente, acenei com a cabeça a dizer que concordava! Olhei o relógio e reparei que já era tarde. Comecei então a despedir-me, agradecendo a companhia e o lanche, prometendo que voltaria em breve para devolver o pano. Eles presentearam-me com um sorriso, como que a agradecer de ter sido testemunha de um trabalho tão nobre!
No regresso a casa, o cheiro agradável do pão não me permitia esquecer daquela família, nem daquela mulher que, apesar da idade, o que mais gosta é de «dar». Entretanto, recordei-me da crise, da que passou e daquela que está para vir; das mensagens e comentários de políticos e especialistas que, todos os dias, enchem as televisões e as páginas dos jornais do egoísmo patético que nos escraviza, da falta fé de tantos…! Sei lá, de tanta coisa!
A verdade é que a D. Helena tem toda a razão! Quando deixamos Deus «estar presente» no nosso coração, o resultado do trabalho das nossas mãos serve, antes de tudo, para «partilhar»! Talvez não fiquemos «ricos», mas que importa isso se somos felizes!?
Até pensei se não seria um bom desafio que, nesta Quaresma, nos puséssemos a «fazer» pão e a «partilhá-lo». Não duvido que chegaríamos à Páscoa mais felizes!
Autor: Jornal Frontal