Ler: meio caminho andado para a lucidez
Camilo Castelo Branco foi o primeiro português a viver da escrita — e, segundo muitos, aquele que melhor dominou a […]
Camilo Castelo Branco foi o primeiro português a viver da escrita — e, segundo muitos, aquele que melhor dominou a arte de escrever. Viveu entre 1825 e 1890, e por isso, este ano, o seu nome reclama um duplo centenário de memória e de celebração. Todos já ouvimos a sentença: “Se queres escrever bem, lê o Camilo.” E é verdade – não há na Literatura portuguesa quem trate a língua com tamanha precisão e ímpeto.
Por isso, para hoje, detenhamo-nos em Camilo. Não nos célebres “Amor de Perdição” (1862) ou “A Queda de um Anjo” (1865), mas naquele que foi o seu último romance, “Vulcões de Lama” (1886), onde o autor inicia a narrativa com uma crítica mordaz e irónica sobre o valor do saber.
É logo nas primeiras linhas que Camilo, com o sarcasmo que o consagrou, dá voz a um pai do campo, indignado porque o filho quer estudar. Para esse homem simples, “isto de saber ler é meio caminho andado para asno e vadio”. A leitura, longe de ser um valor, é vista como um desvio: quem aprende a ler afasta-se do verdadeiro trabalho, perde o tino e acaba por se tornar inútil à terra. “Depois, enquanto ele vai à audiência ou à Câmara, a Cabeçais, (…) os criados e os jornaleiros ferram-se a dormir a sesta de cangalhas à sombra dos carvalhos”, antecipava o pai. Mais adiante, citava exemplos, “personalizando meia dúzia de brejeiros que sabiam ler e eram mais asnos e vadios que os analfabetos”.
Camilo, claro está, não acompanha esta ideia – apenas a retrata com ironia. O autor, que tanto acreditava na força da palavra, mostra aqui o seu génio crítico: descreve uma sociedade que desconfia do saber e que, na sua inocência, o teme, menoriza e ridiculariza. É um diagnóstico que não perdeu validade. Passaram-se quase cento e trinta anos, mas ainda hoje ecoa a mesma suspeita contra quem pensa, lê ou escreve. Ainda se ouvem, aqui e ali, acusações de elitismo dirigidas aos que cultivam as ideias. E não faltam também vozes que reduzem a leitura – esse exercício de atenção e de humanidade – a uma ocupação inútil ou distraída.
Ora, é precisamente o contrário. Ler, e ler bem, é um ato de lucidez e de resistência. Um povo que lê é um povo menos manipulável. Um leitor habitual reconhece mais facilmente o artifício do discurso, o exagero da promessa, o veneno da mentira. E, dentro do vasto universo da Literatura, são sobretudo os Clássicos – de Camilo, de Eça, de Pessoa, de Saramago – que nos devolvem o gosto da linguagem e o rigor do pensamento. Mesmo o simples hábito de folhear um jornal, de acompanhar o que se passa, é já um gesto de cidadania, uma forma de permanecer desperto num tempo que convida à distração.
Por isso, merecem aplauso as iniciativas que mantêm viva esta chama. O Clube de Leitura da Mealhada, que reúne mensalmente, à quinta-feira ao fim da tarde, é um exemplo luminoso. Na última sessão, foi precisamente Camilo o autor em debate. Entre leitores, trocam-se impressões e interpretações – todas diferentes, todas válidas, todas bem acolhidas. E é nesse diálogo sereno que as ideias amadurecem, ganham corpo, sabedoria e sentido. O Município precisa de espaços assim: onde se lê, se conversa e se aprende a olhar o mundo com olhos mais finos.
Camilo, que via no saber a salvação, talvez sorrisse ao ver um grupo de leitores reunidos à volta do seu nome. Afinal, se para alguns “isto de saber ler é meio caminho andado para asno e vadio”, então sejamos todos, com orgulho, vadios da ignorância e asnos da curiosidade.
Autor: Jornal Frontal
