Quinta-feira, 07 de Março de 2019

Crónicas Locais – 261 – O Crime sem Castigo

Crónicas Locais – 261 – O Crime sem Castigo

Opinião

Crónicas Locais – 261 – O Crime sem Castigo

Quando após a revolução de 1383, e a batalha de Aljubarrota dois anos depois, se procurou firmar a paz com […]

Quando após a revolução de 1383, e a batalha de Aljubarrota dois anos depois, se procurou firmar a paz com Castela, o problema que fez arrastar a assinatura do tratado não teve a ver com fronteiras, mas com o ressarcimento dos nobres portugueses que lutaram por Leonor Teles, pelo seu genro castelhano e Beatriz, sua filha. Morto que estava o galego João Fernandes Andeiro, pelos conjurados, e o bispo D. Martinho da Sé de Lisboa, pela arruaça dum povo que o quis atirar da torre abaixo, o Mestre de Avis liderou o movimento e quando vencidos os inimigos se procurou firmar a paz, “os traidores” já tinham perdido os seus bens a favor dos vencedores com Nuno Álvares à cabeça, como grande usurpador. Entre um ressarcimento negociado em dinheiro ou a cabeça no cepo, os sobreviventes não tiveram opção e assim deram o lugar a uma nova burguesia, pagando caro o apoio que tinham dado aos vencidos, e alguns pobres vilões se nomearam fidalgos no lugar que antes detinham.

Esta situação espelha a forma clara como os portugueses de então, talvez entre eles estivesse a padeira de Aljubarrota, castigaram os que se colocaram ao lado de João I de Castela, por pretenderem, entre outras coisas, ceder o território pátrio ao inimigo. Fugidos e esconjurados pelo reino de Portugal, acolheram–se ao vizinho castelhano. O tratado de paz, demorado e muito tempo depois da batalha de Valverde nos arredores de Mérida, foi assinado após discutidas as condições do regresso, em 1411 no lugar de Ayllón, Segóvia, reinava já João II de Castela.

Ora tomando este pequeno episódio como uma espécie de fábula dos nossos dias e com as devidas interpretações extrapoladas, o que se passa hoje no solo pátrio?

Procuremos responder. Cada dia que passa sabemos que a Portugal e aos portugueses, através dos órgãos chamados bancos e não só, foram sucessivamente roubados, não terrenos, mas valores correspondentes ao que tem hoje o mesmo valor que tinham então as terras e propriedades, isto é, dinheiro, riqueza, poder, domínio e mando.

Com armas, com açoites, com fomes, com guerras e com mortes? Não, com traficância, corrupção, compadrio, tráfico de influências, qualquer coisa a que se chama na generalidade crimes de colarinho branco e que tanta miséria trazem à vida das pessoas que são roubadas. Os portugueses é que têm que pagar a conta enquanto os ladrões estão impunes gozando o produto dos seus crimes. Como se depois do “glorioso” dia 14 de Agosto de 1385 fossemos nós a fugir com o rabo entre as pernas e não os castelhanos correndo atrás do seu rei como de facto foi, deixando o campo de S. Jorge todo pejado de mortos.

A justiça de então, mais diligente, sensata e justa, já teria expropriado aos gatunos de hoje os seus bens, bens suficientes para pagar a traição, a alguns mesmo já teria cortado a cabeça no cepo duma azinheira, sem apelo nem agravo, e de ressarcimento o ordenado mínimo nacional para matar a fome no resto dos seus dias.

Mas como bem canta Luís de Camões, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança…” e a justiça de agora não é a justiça de ontem. Há a justiça dos pobres e a justiça dos ricos. A dos imunes e a dos intocáveis. A dos brancos e a dos pretos. A de quem foge e de quem fica, a do faz favor vá para a prisão, a do pontapé no rabo e entra já…a da caserna e a do hotel…enfim, um rol de quadros diversos como os dos tempos áureos da revista à portuguesa.

E perante o cenário que surge como facto consumado ao português de agora, o que está naturalmente sujeito ao cumprimento da lei e aos deveres de cidadão e as acata, a justiça dos tempos é facetada, é à medida dos acusados, ao político é imune, ao banqueiro passa ao lado, roubo grande pena leve, se ele é negro é o racismo, se é rico paga a justiça, se é pobre e roubou por fome tem o cárcere marcado. Será que nos falta de novo um Mestre de Avis; um João das Regras, um Gil Fernandes, um Álvaro Pais um Antão Vasques?

Luso, Fevereiro, 2019

Crime

Autor: Jornal Frontal

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