As profissões populares extintas ou em vias de extinção em Portugal
Conheci bem esta profissão, visto que o meu sogro, chamado de Augusto Miguel Pinto, era quem fabricava no lugar de Póvoa do Garção
O tanoeiro ou também chamado de toneleiro era um artesão que se dedicava ao fabrico de barris, pipas ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, principalmente líquidos, vinhos ou aguardentes. Os barris e tonéis podem ser feitos de: carvalho, castanho, mogno, acácio ou eucalipto; mas a madeira nobre para conservar o vinho e as aguardentes é sem dúvida o carvalho. Todavia, esta missão de fabricar tonéis e outras peças de madeira para armazenamento do vinho perdeu a importância com a utilização de novos materiais e tecnologias, já que fabricação dos tonéis de vinho é hoje feita com inox, embora haja ainda quem conserve os vinhos e aguardentes em madeira para obter o seu envelhecimento com sabor especial.
Conheci bem esta profissão, visto que o meu sogro, chamado de Augusto Miguel Pinto, era quem fabricava no lugar de Póvoa do Garção, da freguesia de Ventosa do Bairro, do concelho de Mealhada, com perícia as dornas, pipas e tonéis que utilizava nas suas colheitas de vinho e de aguardente. Aprendeu tal profissão com aqueles a quem a princípio contratava para o efeito, que eram os tanoeiros Morais, residentes no lugar de Venda Nova, da freguesia de Bolho, do concelho de Cantanhede.
Eu nunca tive habilidade para aprender ou exercer qualquer dessas profissões. Mas meu sogro pedia-me, muitas vezes, para o auxiliar a segurar nos arcos de ferro ou aros onde introduzia as aduelas de madeira com que fabricava tais utensílios e por isso verifiquei como o fazia.
Na Bairrada, a fabricação de tonéis de madeira para vinho ou tanoaria envolve a habilidade de trabalhar com tábuas de madeira e aros metálicos para criar recipientes estanques. Tradicionalmente, a arte da tanoaria na Bairrada era transmitida de geração em geração, com os tanoeiros selecionando cuidadosamente a madeira, geralmente carvalho, e modelando-a para se encaixar perfeitamente, formando o corpo do tonel. A seguir, os aros metálicos eram fixados, conferindo a pressão necessária para manter a estrutura unida e evitar vazamentos.
O processo, de forma mais detalhada, envolvia:
Seleção e preparação da madeira
Os tanoeiros escolhiam madeira de carvalho, conhecida por sua durabilidade e capacidade de transmitir aromas ao vinho ou o envelhecimento às aguardentes. A madeira era então cortada em tábuas com formatos específicos, adequados para a construção do tonel de acordo com a volumetria que se pretendia.
Formação do corpo do tonel
As tábuas eram dispostas em círculo, com suas bordas encaixando-se perfeitamente, formando o corpo do tonel. A precisão no encaixe era crucial para garantir a estanqueidade e evitar os vazamentos. O encurvamento das aduelas era feito primeiro com o auxílio do fogo junto destas, acompanhado com a pressão dos aros metálicos. Era na preparação destas tábuas que se utilizavam as plainas de vários tamanhos para o seu alisamento. Era um trabalho em que o tanoeiro tinha de mostrar perícia. O instrumento utilizado pelo carpinteiro e tanoeiro para alisar a madeira era a plaina ou praina. Esta, também chamada de cepilho, é uma ferramenta manual com uma lâmina afiada que remove camadas finas de madeira, resultando em uma superfície lisa e nivelada. Há plainas de muitos tipos e dimensões diferentes, estando cada qual ideada para satisfazer necessidades diferentes.
Conforme o seu tipo as plainas podem fazer desde o desbaste grosseiro duma peça serrada até ao afagamento final. À de maior tamanho dá-se a designação de garlopa. Na coleção etnográfica de instrumentos rurais que minha Mulher mantém na aldeia existem vários exemplos desses instrumentos.
O meu sogro, além das dornas, pipas e quartos da água-pé ou vinho francês, era também perito na construção de tonéis para o envasilhamento do vinho e da aguardente.
Na Bairrada, o utensílio de madeira composto por ripas verticais e aros onde o bagaço é colocado para ser prensado designa-se cincho ou cesto. Eis o exemplar existente na adega da mesma coleção.
A prensa e o seu fuso central (parafuso sem-fim) à roda do qual era montado o cincho ou cesto, onde se colocava o bagaço para ser espremido pela prensa com o acionamento de uma barra de ferro (alavanca) que se introduzia no orifício que tem a forma de um quadrado. Era uma operação que exigia força das pessoas que nela intervinham, normalmente duas, que acionavam a alavanca para a frente e logo de seguida para trás. O fuso estava introduzido no cimento de um tanque pequeno, que era envolvido ou cercado por dois tanques grandes onde as uvas doces fermentavam durante vários dias até produzirem o vinho com a graduação alcoólica resultante da transformação da glicose e a frutose em álcool. Esta transformação de uvas doces em vinho baseia-se num processo natural chamado fermentação alcoólica. Nele, os açúcares naturais do sumo da uva (mosto) são consumidos por leveduras e convertidos em álcool e dióxido de carbono. No final, depois de se ter tirado o vinho desses tanques para ser armazenado nos toneis em madeira, hoje de inox, onde o vinho acaba a ultimação da sua fermentação, é que se retira o bagaço para ser espremido na prensa; depois disto, o bagaço é ainda utilizado no alambique ou destiladora, donde se extrai a aguardente ou então obtém-se a fabricação da água-pé ou do vinho francês com a adição de água ao bagaço.
Fixação com aros metálicos
Aros metálicos eram colocados ao redor do corpo do tonel, comprimindo as tábuas e mantendo-as firmemente juntas. A tensão exercida pelos aros era essencial para a estabilidade do tonel. Era aqui que eu auxiliava o meu sogro a colocar as tábuas dentro desses aros e depois a martelá-los para obter o máximo de pressão sobre as aduelas.
Acabamento
O tonel passava por um processo de acabamento, que poderia incluir a aplicação de verniz ou outros produtos para proteger a madeira e realçar sua beleza. Os tonéis assim construídos eram fundamentais para a maturação e o envelhecimento do vinho e das aguardentes na Bairrada, conferindo-lhes características únicas a estas bebidas.
De tamanhos iguais ainda hoje mantenho na minha adega da aldeia os vários tonéis em que meu sogro fabricava e mantinha o vinho e a aguardente e que constam da amostra fotográfica atrás referida.
Autor: Nuno Salgado


