Fernando Correia cruza ciência, ilustração e filatelia para contar a história da natureza
Em entrevista ao Jornal da Mealhada contou como surgiu o gosto pela natureza e sobre o percurso como autor, professor, ilustrador científico e biólogo
A Fundação de Serralves, no Porto, foi o palco do lançamento do livro do biólogo Fernando Correia, no dia 18 de setembro. Especializado em Comunicação de Ciência, na área da Imagem, desenvolve a atividade profissional de ilustrador científico desde 1988. Em 2014 exerceu os cargos de Presidente do Conselho Geral e Presidente do Conselho de Administração da Fundação Mata do Bussaco. Entre 2011 e 2024 foi docente do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro e diretor do Laboratório de Ilustração Científica.
Fernando Correia criou o Curso de Formação em Ilustração Científica (CFIC), que coordenou durante 12 anos. É autor de 11 livros, escreveu e coescreveu 62 artigos para publicações especializadas e 104 artigos de divulgação científica. Do conjunto dos vários trabalhos “destaca a coordenação e revisão científico-técnica do primeiro manual ibérico dedicado à ilustração científica (Manual de Ilustración Científica, Editora Geoplaneta, España, 2022)”.
Em entrevista ao Jornal da Mealhada contou como surgiu o gosto pela natureza e sobre o percurso profissional que o levou a desenvolver projetos de âmbito nacional e internacional, como autor, professor, ilustrador científico e biólogo.
Nasceu em Lisboa, viveu na Guarda, estudou em Coimbra e formou-se em biologia. Acabou por ficar a viver na Mealhada. “Já vivo no concelho há 30 anos, na Pampilhosa do Botão.” O gosto pela natureza começou ainda na infância: “Desde que era criança, sempre gostei muito da natureza. Mas também gostava muito de pintar e desenhar.” O pai era caçador e conta que o acompanhava e aproveitava para passear e observar a natureza. “Dava-me aquela componente de o acompanhar numa atividade cinegética em que ele se divertia, e a minha diversão era passear pelos campos e ver os animais.”
Depois, descobriu que podia cruzar diferentes áreas, o que se tornaria a sua profissão. “Quando conciliei esse aspeto da natureza com a parte de desenhar, ou seja, entrei num campo híbrido, que se designa por ilustração científica, o qual me permite conciliar o conhecimento científico na área da biologia com a parte da comunicação, mas através da ilustração. Como se diz no adágio popular: uma imagem vale por mil palavras”, realça.
O biólogo afirma que comunicar através da imagem é mais fluido e imediato, considerando que as pessoas têm uma melhor compreensão, “mesmo que o assunto seja mais complexo”. O primeiro animal que ilustrou foi o lobo-ibérico, resultado de um workshop com o ilustrador Pedro Salgado. Essa primeira imagem “deslumbrou várias pessoas”, incluindo Francisco Petrucci, do Grupo Lobo, e abriu-lhe as portas do meio profissional.
O ilustrador científico recorda que, nos tempos da universidade, fazer relatórios nas aulas práticas era “um pavor e uma seca brutal” para os colegas, mas para si “era um deleite poder estar a desenhar o que observava: já era uma interpretação na área da ciência através da construção da imagem”.
A aproximação de Fernando Correia ao universo da filatelia surgiu de forma inesperada em 2013, quando recebeu um convite das Nações Unidas para desenhar uma emissão dedicada a espécies em perigo de extinção. “Foi um trabalho que me abriu os olhos para a questão da filatelia. Primeiro fiz selos para fora de Portugal”, aponta.
Mais tarde, em 2015, os CTT convidaram-no para ilustrar a reintrodução do lince-ibérico em Portugal, seguindo-se várias outras coleções. “O felino mais ameaçado que tínhamos no mundo esteve quase extinto nas populações que existiam em Portugal; agora já há, em franca recuperação, cerca de dois mil exemplares que estão na natureza”, revela.
Com duas emissões para a Organização das Nações Unidas (ONU), uma delas composta por 12 selos, nota: “Se não me engano, sou o português que tem mais selos feitos para as Nações Unidas. Mais do que pela questão de granjear prestígio, foi o entranhar-se dentro de mim esta outra visão que temos do mundo num pequeno quadradinho de três por quatro centímetros, que é uma coisa diminuta”, expõe.
Fernando Correia aponta a emissão dos anfíbios, denominada “Anfíbios de Portugal”, que foi lançada a 18 de setembro: “De facto, são os vertebrados mais ameaçados a nível global. Com 41 por cento das espécies que estão descritas ameaçadas de deixar de existir no mundo pela questão da poluição e das alterações climáticas, que são situações que têm uma origem antropogénica — ou seja, é o próprio homem que está a fomentar —, o que cria um conflito interessante: o homem é quem estuda, mas é também quem ameaça”, destaca.
Foi precisamente essa vasta experiência que deu origem ao seu mais recente livro, Impressões da Natureza – O teatro da biodiversidade: 1968-2025. “Este livro é o corolário de todo este trabalho que fiz nesses selos, que, ao mesmo tempo, começou a motivar-me para perceber: afinal, quem é que desenhou selos antes e quando surgiu o primeiro selo dedicado à natureza?”, aponta.
O biólogo explica que essas questões exigiam que realizasse uma investigação. O autor reuniu um corpus filatélico, um conjunto que afirma englobar quase 670 selos, cobrindo cerca de 57 anos de emissões dos CTT (até 2025).
“O que permite abarcar quase meio século em que os CTT fizeram um trabalho de trazer ao conhecimento público cerca de 360 espécies, essencialmente de Portugal”, descreve.
O ilustrador científico revela que este trabalho de investigação lhe permitiu tirar várias conclusões “muito interessantes” para a ecoliteracia. “Foi por isso que construí todo o livro nessa base, como se fosse uma peça de teatro, ou seja, como se fosse um espetáculo da natureza, em que as pessoas não vão encontrar um catálogo descritivo, maçudo, com todos os selos, mas são selos que fui selecionando porque são pertinentes para contar uma história”, expressa.
Fernando Correia acrescenta que cada conjunto de selos cria uma rede: “Permite-nos contar uma história. Se agarrarmos nos mesmos selos e criarmos uma rede de conexão diferente, vamos criar uma outra história.
Os selos são como pequenas peças de um tabuleiro de xadrez que, jogadas de determinadas maneiras, nos vão dar um determinado desfecho. E foi a partir daí que surgiu este livro.”
Há 30 anos a morar no concelho da Mealhada, conta que fez “um percurso invulgar”. “Criei uma associação cultural, a Oficina de Ideias, que funcionou vários anos e onde fizemos várias atividades de cultura, biologia e ecologia, em que trouxemos a ciência à população.
Depois, fui convidado para ser presidente da Mata do Bussaco em 2014, onde estive oito meses que me deram uma grande aprendizagem”, relembra.
Apesar de trabalhar a partir de casa, onde tem o seu ateliê, o autor mantém uma rede colaborativa com uma equipa através da internet.
Desenvolvendo projetos para municípios e editoras nacionais e internacionais, além dos livros de divulgação e da filatelia, assina já a ilustração de oito manuais escolares de ciências naturais.
Sobre o impacto do seu trabalho e a forma como encara a ciência e o ensino, Fernando Correia deixa uma mensagem simples sobre a importância de instigar o conhecimento: “Nós não precisamos de decorar as coisas, nós precisamos de compreender. Estimulem a vossa curiosidade.”
Autor: Jornal Frontal


