Sexta-feira, 05 de Dezembro de 2025

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”
“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”
“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”
“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

EntrevistaEspecial

“Da concertina à Europa: O caminho de Michael”

“As pessoas não esperam que um rapaz da minha idade toque concertina. É engraçado ver a surpresa delas”, ri-se.

Aos 14 anos — celebrados hoje, dia 5 de dezembro — Michael Carvalho fala com a maturidade de quem parece já ter vivido muitas vidas. Nasceu nos Estados Unidos, mas é em Portugal, na Mata-Curia, que hoje constrói o seu percurso ao lado dos pais (Edite e Miguel). “Estudo na Escola Básica de Vilarinho do Bairro e frequento o 8.º ano”, diz. É bom aluno, apaixonado pela concertina, pela música e pela cultura popular — e, como se verá, por tudo o que o rodeia.

Raízes de tradição
O gosto de Michael pelas tradições portuguesas começou cedo, aos 10 anos, ainda do outro lado do Atlântico. Nos EUA, em Newark – onde reside seu irmão Ruben- integrou o Rancho Folclórico Dança na Eira, da Fundação Bernardino. “Entrei quase por acaso — por convite, porque faltavam rapazes — mas o acaso transformou-se numa vocação. Comecei a dançar e percebi que gostava do palco, do ritmo, de fazer parte de algo maior”, conta.
Na despedida, quando veio para Portugal, o grupo ofereceu-lhe uma placa comemorativa e um certificado de mérito, que hoje ocupam lugar especial no seu estúdio. “Foi emocionante. Percebi que tinha deixado uma marca. Era o mais novo, todos me acarinhavam muito. Foram momentos que nunca esquecerei.”
Foi também nos Estados Unidos que encontrou a sua primeira concertina. “Ouvia o instrumento no rancho enquanto dançava. Gostava do timbre, da alegria que transmitia. Um dia pensei: e se aprendesse a tocar? Comecei por iniciativa própria e depois, com aulas, fui aperfeiçoando a técnica. Foi assim que tudo começou.”
A concertina — nome dado no Norte ao acordeão diatónico — remonta ao século XIX europeu, com raízes no antigo sheng chinês, datado de 2700 a.C. “Há muito para descobrir. Cada região toca de forma diferente. Isso fascina-me.”

Entre palcos e ranchos
Quando chegou a Portugal, há dois anos, Michael integrou o Rancho Regional de Fânzeres, no Porto, onde a mãe faz parte da direção. Foi ali que viveu o primeiro contacto com o palco português, tornando-se rapidamente uma das figuras mais jovens e carismáticas do grupo.
“As pessoas não esperam que um rapaz da minha idade toque concertina. É engraçado ver a surpresa delas”, ri-se.
Atualmente participa também no Rancho Folclórico da Pedralva-Anadia, onde a mãe canta no coro. “É o meu grande apoio. Está sempre a incentivar-me.”
A zona de Fânzeres, com forte tradição de concertina, é exigente: “As pessoas percebem logo se estás a tocar com alma. É uma responsabilidade enorme, mas adoro o desafio. No Norte há uma cultura muito própria deste instrumento. Mais a centro e sul, ouve-se mais o acordeão, e por isso muita gente confunde os termos.”

Do folclore ao mundo
Durante o festival Mund’Art — Festival Internacional de Músicas e Danças Tradicionais — Michael foi convidado a ser guia e tradutor de grupos vindos da América Latina e da Europa. “Falo bem inglês, então ajudei como intérprete. Mas o que mais me marcou foi o grupo da Sérvia.
Aprendi muito sobre a música e a cultura deles.”
Para ele, folclore é identidade: “É uma parte visível da cultura de um povo. Cada música tem uma história, uma emoção.”
O jovem músico tem também ouvido apurado: consegue reproduzir melodias depois de as ouvir uma única vez. Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando foi desafiado a tocar o hino de um evento — que só conhecera na véspera — num jantar com 1.200 pessoas. “Estava nervoso, mas correu bem. Foi um orgulho enorme, um desafio”

Livros, causas e um olhar sobre o futuro

Fora do palco, Michael é leitor compulsivo: de O Diário de Anne Frank a 1984 de George Orwell, de Frieda McFadden a Angela Davis e Álvaro Cunhal. E claro, toda a saga escrita por J. K. Rowling, a paixão referida por Harry Potter. E sobre essa diversidade, responde: “Gosto de suspense, mas também de perceber o mundo. Leio autores de ideologias diversas para formar as minhas próprias opiniões. Não quero ir só pelo que me dizem.”
A mãe confirma, divertida, que recentemente o ouviu pedir um livro de um conhecido ator político de direita. “Perguntei-lhe porquê, e ele respondeu: ‘Para conhecer as ideias e poder debatê-las com certezas.’”
Preocupa-se com o rumo do mundo e acompanha a atualidade. “As guerras na Ucrânia e em Gaza são desnecessárias e desumanas. Falta diálogo.” A ascensão da extrema-direita também o inquieta, sobretudo porque muitos jovens “não demonstram interesse pelos temas atuais. A cidadania devia ser uma referência para todos. É muito importante para o nosso relacionamento”

Com 14 anos a chegar, Michael já tem objetivos: “Quero seguir uma carreira que me permita, no futuro, entrar na política e chegar ao Parlamento Europeu. Quero ajudar a construir um país e uma Europa melhores, mais justos e tolerantes. Gosto do debate de ideias.”

Escutismo, igreja e tradição
Entre estudos, aulas de concertina e leituras, Michael é escuteiro — adesão recente. “Decidi experimentar. Fui bem acolhido e gostei. Há convivência, amizade, valores. Vai ao encontro do que procuro.”
Sem detalhar demasiado outra área da sua vida, refere ainda que frequenta a catequese e é acólito na Igreja Paroquial de Tamengos.
O Natal, que se já faz sentir por toda casa, diz, “é um momento importante de família, de dar e receber, de muita cor e alegria — e de cabrito na consoada”, que se compreende sendo o pai um homem do norte. “E Sozinho em Casa, claro !”

O olhar atrás da lente
Durante a sessão fotográfica desta entrevista, Michael revelou outra paixão: a fotografia. “Quero aprender e experimentar. A máquina é uma Canon que veio dos Estados Unidos — da minha mãe —, mas a curiosidade é minha.” – sorriu!
Questionou enquadramentos, aberturas e velocidades, enquanto apresentava as suas inseparáveis amigas: Dasy, a cadela irrequieta, e Lili, a gata tricolor “que me acompanha enquanto estudo”.
Ficou prometido um novo encontro — desta vez com câmaras nas mãos de ambos — e uma partida de xadrez seu desporto favorito, no tabuleiro, “face to face” como tanto gosta. Vamos cumprir, mas, ganhar não sei!

O som que o move
Michael Carvalho é exemplo de como música, cultura e conhecimento moldam um espírito jovem e determinado. Nada lhe é imposto: os pais apenas orientam e apoiam. A concertina que evolui nas mãos é mais do que um instrumento — é o elo entre as suas raízes, os seus sonhos “e a vontade de fazer do mundo um lugar melhor”. E, apesar da paixão pela tradição, os seus gostos musicais estendem-se também ao universo moderno: “Tame Impala, Tyler, The Creator e Frank Ocean fazem igualmente parte da banda sonora que me inspira”.
E assim Michael, em plena fase de adolescência, segue um caminho seguro rumo a um adulto consciente — e profundamente humano.

Texto e fotos: Fernando Simões 

Anadia

Autor: Fernando Simões

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