Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026 às 15:31

De Casal Comba ao Vietname: Simão Cruz viaja por 15 países

De Casal Comba ao Vietname: Simão Cruz viaja por 15 países

@Simão Cruz

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EntrevistaLocal

De Casal Comba ao Vietname: Simão Cruz viaja por 15 países

Com 21 anos decidiu percorrer 15 países ao longo de 62 dias com apenas uma mochila às costas

Natural de Casal Comba, Simão Cruz com 21 anos decidiu percorrer 15 países ao longo de 62 dias em 2026 com ape­nas uma mochila às costas. Em entrevista ao Jornal da Mealhada (JM), contou como foi a travessia até ao Sudeste Asiático, marcada por peripécias inusitadas e uma lição de vida que afirma ter transformado a sua visão do mundo.

Embora muitos jovens procurem a estabilidade após os estudos ou o arranque da carreira profis­sional, para Simão Cruz o destino reservava um rumo diferente. Após dois anos na faculdade a frequentar o curso de Design e Multimédia — com o qual não se sentia feliz — e um ano a trabalhar como nadador-salvador na piscina local, Simão conta que se sentia condicionado pelas expec­tativas alheias. A ideia de fazer uma viagem de mochila às costas já era um desejo desde o 12.º ano e pela experiência que já tinha como escuteiro no Agrupamento de Escuteiros de Casal Com­ba. “Também já fui escuteiro e gostava muito de acampar e de ir para o meio da natureza. E queria fazer uma viagem que me puxasse.

Quando se decidiu, preparou uma mochila com o que considerava apenas essencial. “Meti uma mochila às costas e o objetivo era basicamente ver até onde conseguia chegar sem dinheiro”, recorda. No início, descansou os pais dizendo que iria apenas pela Europa, mas a facilidade em conseguir boleias rapidamente expandiu os horizontes da aventura até à Ásia.

Partiu no dia 16 de março da zona industrial, onde a mãe o deixou. A intenção inicial era pedir boleia a camionistas, mas as rigorosas políticas e seguros das empresas de transporte fizeram com que a maioria se negasse a levá-lo. Desta forma, revela que mudou de estratégia e começou a procurar boleias de carros, conseguindo a primeira rumo a Leiria, seguindo depois para Vigo, Espanha.

No primeiro dia, em Vigo, aponta que cometeu o erro de passear pela cidade com o peso da mochila e sem alimentos. “Quando dei por mim, já eram seis da tarde, já não tinha um sítio para dormir. Tive de andar um bocado para sair do centro da ci­dade e meter a minha tenda em algum lado”, conta. No dia seguinte, uma senhora ofereceu-lhe fruta e bolachas, e uma professora de música levou-o na viatura e acabou por lhe dar teto para pernoitar. Foi o prenúncio dos dois meses que se seguiriam. Ao longo de 62 dias, a rota estendeu-se por 15 países: Espanha, França, Mónaco, Itália, Suíça, Áustria, Eslovénia, Croácia, Sérvia, Bulgária, Turquia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguizistão, China e o Vietname, destino final que concluiu a 18 de maio.

Equipado com uma tenda, saco de cama e vestuá­rio essencial, Simão Cruz procurava gravar tudo para um futuro documentário no YouTube. Con­tudo, ao transitar de Itália para a Suíça, viveu um momento de pânico ao perceber que tinha deixado a câmara de filmar numa paragem de estrada, com quatro horas de gravações acumuladas. Sem falar a língua do condutor que o transportava, conseguiu que este parasse e, com a ajuda de um casal que o levou de volta, encontrou o equipamento intacto à beira da estrada. Outro episódio ocorreu na Croácia, onde conseguiu boleia com uma banda de punk rock em digressão que o convidou para um concerto num cabo distante, o que não estava de acordo com o plano de Simão Cruz, que acabou por não os acompanhar. Três dias depois, já na Sérvia, a tentar arranjar transporte numa estação de serviço, o destino voltou a cruzar os seus caminhos: “Do nada, ouço alguém gritar ‘ei, queres boleia?’. E olho para trás e era a mesma banda de punk rock. Passado 3 dias num país diferente, numa bomba, numa estação de serviço, num sítio qualquer.”

A generosidade dos desconhecidos assumiu também formas curiosas. Numa ocasião, Simão conta que ofereceu um chocolate Snickers a um condutor simpático; na boleia seguinte, transportado por um padre doutorado, recebeu de presente outro Snickers e uma nota de 20 euros.

Com o dinheiro que alguns condutores lhe iam doando ao saberem do desafio, o jovem foi ge¬rindo despesas inevitáveis. Para o Cazaquistão, teve de apanhar um voo com partida da Geórgia (necessário devido ao fecho de fronteiras terrestres na Rússia e no Uzbequistão) e tinha de ter um cartão eSIM para ter acesso ao tradutor no telemóvel fora da União Europeia.

Das 60 noites de viagem, apenas 15 ou 16 foram passadas na tenda — maioritariamente na Europa —, recorrendo no resto dos dias à hospitalidade local ou à plataforma “Couchsurfing”. Simão revela que ia lavando o cabelo e fazendo a barba em casas de banho de centros comerciais. A nível climático, enfrentou extremos. Nas Dolomitas, em Itália, dormiu na tenda a temperaturas negativas: “Estava a menos de dez graus. Cheguei com os pés congelados. A minha comida congelou toda, a água também. E não consegui dormir nada. Acho que esse foi o pico de frio.”

Contudo, nenhum desafio logístico se comparou à travessia da China. Para cruzar o território chinês até ao Vietname, Simão gastou 75 euros num bilhete de comboio na classe mais económica: 72 horas consecutivas num assento simples. “Foi uma experiência dura, mas foi muito fixe. Agora olho para trás e foi mesmo muito fixe.

” Durante os três dias de viagem, dormiu um total acumulado de cerca de oito horas num vagão sobrelotado, onde passageiros dormiam uns em cima dos outros, partilhavam música e preparavam noodles instantâneos com a água quente disponível a bordo.

A passagem pela Turquia e pelo Quirguizistão marcou profundamente Simão do ponto de vista humano e gastronómico. Na Turquia, a calorosa receção desmistificou preconceitos: “Na Turquia, mudei completamente a visão porque as pessoas eram supersimpáticas. Conheci as melhores pes¬soas na Turquia e isso mudou completamente a maneira de pensar.” No Quirguizistão, encontrou o povo mais hospitalar da viagem. Em zonas remotas sem estradas asfaltadas, as populações locais abordavam-no na rua para o convidar a comer e dormir nas suas casas.

A simplicidade de vida impressionou Simão Cruz: “As casas de banho deles eram um buraco, era uma casota e um buraco. Tinham pouco, mas eram muito felizes.” Já a China representou o maior choque cultural e político. Além do controlo estatal rigoroso e da ausência de redes sociais ocidentais, Simão deparou-se com uma diversidade geográfica grande, onde a paisagem transitava de montanhas com neve para desertos na mesma viagem de comboio.

Apesar de ter enfrentado alguns momentos de receio em acampamentos noturnos ou pernoitas em casas de desconhecidos, a viagem terminou atingindo o objetivo final no Vietname, onde Simão despachou para Portugal o material pesado de acampamento. De regresso a Portugal, Simão Cruz afirma sentir uma transformação na sua postura: “Sinto que agora sou uma pessoa muito mais calma. Quando acontece algo mais estressante, sou muito mais calmo e não entro tanto em stresse. Acho que é onde noto mais diferença”, confessa.

A experiência fez com que passasse a dar valor ao essencial e a libertar-se das pressões sociais. Afastado da ideia de trabalhar fechado num escritório em frente a um computador, Simão encontra-se atualmente a tratar da documentação necessária para emigrar, ponderando destinos como a Finlândia, a Áustria ou a Islândia, onde procura trabalhos mais práticos, físicos ou em contacto com a natureza.

Casal Comba

Autor: Jornal Frontal

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