Escolas de Samba encheram o Parque da Cidade da Mealhada
O espetáculo das Escolas de Samba realizou-se no dia 12 de setembro
As Escolas de Samba da Mealhada subiram ao palco da Cidade do Samba e encheram o recinto do Parque da Cidade, no dia 12 de setembro. Durante o fim de semana, além dos espetáculos, a GRES Amigos da Tijuca, a Escola de Samba Sócios da Mangueira, o GRES Batuque e a GRES Real Imperatriz estiveram com bancas de bebidas para venda ao público.
O primeiro dia do evento começou com a Roda de Samba do Central do Samba, que trouxe ritmo e animação aos visitantes que paravam para provar as bebidas que as escolas vendiam. Perto da entrada do evento encontrava-se, com o azul e amarelo, a GRES Amigos da Tijuca. O vice-presidente da Escola de Samba fundada em Enxofães, Tiago Navega, expôs ao Jornal da Mealhada (JM) que vendiam bebidas com o objetivo de “ganhar algum dinheiro para a associação” da escola. O destaque era a bebida “Pura Paixão”, que contou ser “receita da casa”. Antes da apresentação da escola em palco, o vice-presidente do GRES Amigos da Tijuca afirmou que prepararam um espetáculo “grande”. “É novo, como todos os anos na Cidade do Samba”, realçou.
Em relação à preparação para o espetáculo, referiu que “há dois meses” que trabalhavam na confeção dos fatos e ensaios. Além do espetáculo, também o trabalho no bar envolveu toda a escola. “É por turnos com toda a escola: bateria, passistas, direção.” Questionado sobre o que seria o espetáculo, realçou o fator surpresa: “Surpreendemos sempre, temos algo diferente, inédito. Este ano não é diferente.” No mesmo dia, a Escola de Samba também divulgou nas suas redes sociais o tema para o Carnaval 2027: “Tijuca no Delírio de Wonka”.
De verde e branco, estava também presente a banca dos batuqueiros. O presidente do GRES Batuque, Carlos João, explicou ao JM que as bebidas de destaque eram a cerveja e a caipirinha. Em relação à comida, foi acordado pelas quatro escolas não venderem. “É só para as pessoas da nossa escola que vão atuar, apoiar na confeção, ajudar e para a nossa escola convidada.” No que diz respeito à logística, apontou que a direção esteve na caixa e os restantes batuqueiros apoiaram no bar. O presidente do GRES Batuque referiu ainda o trabalho intenso dos dias que antecederam o evento: “A última pessoa que esteve a confecionar fatos saiu da sede às 6 horas da manhã, parece um Carnaval. Foi muito trabalho”, realçou.
Com o verde e rosa no coração, estava a Escola de Samba Sócios da Mangueira. O presidente da Comissão de Gestão da escola, Juvenal Santos, contou ao JM que estavam a vender a caipirinha, que descreveu como o “ex-libris”, cerveja e “diversão”. Em relação à bebida de destaque, Juvenal Santos realçou que a receita é segredo: “É a nossa imagem de marca, há mais de 20 anos. O nosso fundador, João Fernando, inventou esta receita e preservámo-la até hoje.” Para o espetáculo, Juvenal Santos descreveu que tiveram “três semanas intensas”. “A entrar às 16 horas e a sair praticamente às 3 horas da manhã todos os dias”, revelou.
Com os característicos verde e roxo, estava a GRES Real Imperatriz. A vice-presidente da Escola de Samba, Patrícia Tovim, descreveu que tinham o balcão para fazer as bebidas brancas, como caipirinhas. “Cada escola dá um toque à sua caipirinha, mas não temos uma bebida específica da GRES Real Imperatriz. Temos uma pessoa que faz caipirinhas mesmo muito boas, então vamos com o toque especial dela”, destacou. Em relação às expectativas, a vice-presidente afirmou que eram altas: “Acreditamos que este modelo gratuito aberto à comunidade, com as escolas de samba da região, vai ser um sucesso e que vai trazer muita gente.”
Como nas restantes escolas de samba, a preparação para o espetáculo na GRES Real Imperatriz exigiu uma rotina de trabalho intensa. “Fui para casa, eram 4 horas da manhã. A GRES Real Imperatriz teve no fim de semana passado no mercado quinhentista em Casal Comba, portanto isto foram duas semanas quase na loucura. Tem muito trabalho porque as escolas da Mealhada fazem do Festival de Samba quase um novo Carnaval. Apresentamos sempre um tema, um fio condutor, não vamos ali só com fatos de atuações ou de outros carnavais. E então tem toda a preparação por trás disso: os ensaios, a música, os fatos”, descreveu.
A apresentação das Escolas de Samba da Mealhada foi um dos momentos mais aguardados do evento. Por volta das 21h30, com o DJ Mr. White a passar música, as pessoas foram chegando e aguardavam na frontline. A plateia contou com crianças, idosos, famílias, apoiantes e simpatizantes com as t-shirts e chapéus de cada Escola de Samba da Mealhada.
Os espetáculos contaram com Oriana Pataco e Fernando como apresentadores. A primeira escola a subir ao palco foi uma das convidadas, a GRES Trepa no Coqueiro, de Estarreja, seguindo-se as escolas da Mealhada: GRES Real Imperatriz e GRES Amigos da Tijuca. O momento de revelação do artista Maninho como o novo Rei do Carnaval da Bairrada 2027 antecedeu a segunda parte do conjunto de espetáculos, que se iniciou com a atuação da Escola de Samba convidada, GRES Charanguinha, de Ovar, seguindo-se o GRES Batuque da Mealhada, a GRES A Rainha, da Figueira da Foz, e encerrando com a apresentação da Escola de Samba Sócios da Mangueira. Após as apresentações, o evento continuou com uma Roda de Samba anunciada por Xandinho, que convidou o público a juntar-se à continuação da festa carnavalesca.
Após os espetáculos, o JM entrevistou os representantes das Escolas de Samba da Mealhada, que falaram sobre as inspirações para os espetáculos e apontaram alguns dos desafios enfrentados.
A presidente da GRES Real Imperatriz, Margarida Oliveira, contou que a inspiração foi a Bahia. “Por causa das músicas que íamos tocar, tínhamos um mestre novo e a bateria estava a iniciar. Estas duas músicas foram algo que encontrámos que seria fácil de ensaiar e de conseguirmos meter um espetáculo em palco. Em conversa, escolhemos as músicas e, como as duas falavam da Bahia, inspirámo-nos e correu muito bem”, explicou. A presidente realçou que o principal objetivo era levar a apresentação a palco: “Conseguimos fazer aquilo que podíamos, não temos muita gente, mas fizemos um espetáculo em palco, que era o que nos interessava. Tínhamos as coisas todas prontas a tempo, correu muito bem. As pessoas, tanto pela evolução da bateria como das fantasias, vieram ter comigo a dar os parabéns: pessoas de outras escolas, de Casal Comba, amigos, colegas e do concelho de Anadia. Gostaram e é para o público que trabalhamos”, sublinhou.
Margarida Oliveira explicou que decorrem sempre imprevistos e que o importante é improvisar: “Quando a harmonia entrou, as mirins não saltaram, são meninas dos 6 aos 10 anos. Houve uma parte da coreografia, logo no início, que elas não fizeram, mas adaptaram-se muito bem. Faz parte de qualquer espetáculo; elas sabem que têm de improvisar.” Em relação ao espaço, a presidente da GRES Real Imperatriz considera que o Parque da Cidade foi o sítio ideal: “Quando cheguei ao palco, foi uma surpresa porque vi que estava cheio. O facto de terem trazido o evento para o Parque da Cidade foi muito bom.”
Também relembrou a mudança da Escola de Samba para a nova sede. “O protocolo ainda vai ser assinado, mas foi-nos proposto e cedido o espaço do barracão por trás do Mercado Municipal. A Câmara Municipal vai fazer algumas obras de melhoramento, e depois vamos arranjando e construindo o resto”, informou. Margarida Oliveira acrescentou que a nova localização vai facilitar a logística e a Escola de Samba vai ficar mais próxima das restantes. “Sobretudo no transporte dos carros alegóricos. E ficamos todos mais próximos: a Tijuca e o Batuque de um lado da linha da estação e a Real Imperatriz do outro”, realçou.
A presidente da GRES Amigos da Tijuca, Patrícia Pinto, também contou ao JM que fizeram adaptações: “O palco já era pequeno e depois, com toda a estrutura de som montada, a área útil para o nosso espetáculo ficou pequena. Levámos 62 pessoas para o palco, tínhamos muitas interações de grupos nas passagens de uns para os outros. Estavam em palco, além dos ritmistas, por volta de 20 bailarinos, e as fantasias são volumosas. Conseguimos adaptar e acho que a atuação foi um sucesso, o público adorou.”
Em relação à inspiração para a apresentação, a presidente explicou que, para o conceito de Festival de Samba, prepararam um espetáculo independente do Carnaval. “Fomos buscar dois enredos do Brasil, depois retratámos uma parte do enredo, naquela ala específica. Por exemplo, a garra é de um dos temas da Unidos da Tijuca, de 2026, a Escola de Samba do Brasil que fala da Carolina Maria de Jesus”, elucidou.
Patrícia Pinto contou que o tema se relacionava com a escravatura e o conceito da Carolina Maria de Jesus era a escrita: “Libertou-se muito através da escrita, então as nossas fantasias tinham o papiro, era um tecido a imitar e elas iam com as caras caraterizadas de sujidade e pobreza. A fantasia era uma homenagem à Carolina de Jesus que, através da cultura, conseguiu mudar o conceito de favela”, realçou.
O presidente do Batuque, Carlos João, também afirmou que a apresentação do GRES Batuque superou todas as expectativas dos batuqueiros: “Sentiram um enorme orgulho da escola, da nossa apresentação, e também o público foi muito positivo. Sabíamos que tínhamos muito trabalho feito, muita coreografia montada, muitas horas de dedicação a fazer os fatos”, destacou.
Para os figurinos, o presidente do GRES Batuque explicou que a Escola de Samba não levou um tema específico para o palco. “Sentimos um silêncio na plateia por parte de toda a gente para absorverem aquilo que estávamos a fazer. Foi, do princípio ao fim, muito homogéneo. As pessoas sentiram e acho que isso foi a maior vitória que podíamos ter: os batuqueiros estarem orgulhosos da escola e o público estar a gostar do espetáculo”, reforçou.
No que diz respeito aos desafios, Carlos João apontou “o trabalho árduo” para uma apresentação de 26 minutos, que exigiu meses de preparação e o esforço dos últimos dias: “Deixarmos um bocadinho tudo para o fim, o apanágio do Batuque é esse. Estamos a tentar mudar esse estigma de deixar para a última da hora. Queremos que as pessoas comecem a trabalhar mais cedo, mas isto está enraizado na escola”, expressou.
Em relação aos fatos, afirmou que houve um cuidado especial: “Tanto nos da comissão de frente como nas passistas e na Rainha de Bateria, que estavam lindos e em harmonia. O espetáculo nunca teve quebras, do princípio ao fim. As cores, a produção, foi tudo muito intenso e aqueles 26 minutos passaram muito depressa”, ilustrou.
O membro da Comissão de Gestão da Escola de Samba Sócios da Mangueira, André Castanheira, a nível logístico fez um “balanço positivo”. “Correu tudo bem e esteve presente muita gente. O tempo e o calor ajudaram, todas as escolas estiveram muito bem, é continuar”, apontou. Sobre o trabalho e a preparação do espetáculo, apontou que existem sempre desafios, mas que correu tudo bem: “Andámos a ensaiar para apresentar o espetáculo ali em cima do palco e acho que respondeu às expectativas. Aquele núcleo de cerca de 50 pessoas – entre a bateria, passistas e porta-bandeira — esteve ali firme desde maio. Na última semana de agosto e nas duas primeiras semanas de setembro estiveram a ensaiar todos os dias. Acho que corresponderam ao espetáculo.”
A inspiração para a apresentação, segundo a coordenadora e ensaiadora da Escola de Samba, Adriana Soares, veio de uma escola do Brasil: “Eles levaram o ano passado o tema do «Bembé». Faziam o início com a roda de samba, que foi aquilo que levámos: os barcos, com a Iemanjá em cima, iam as Mães de Santo ao lado, as baianinhas e os marinheiros referentes a cada música que representava o samba de roda. E depois entravam as passistas”, descreveu. A ensaiadora acrescentou que decidiram fazer um espetáculo em que contassem uma história: “Porque anteriormente não contávamos uma história, não existia um tema específico, este ano decidimos fazer um tema para ser um show mais coeso”, expôs.
Em relação aos desafios, Adriana Soares contou que existem sempre neste tipo de atuações: “Há sempre aquelas peripécias no final. Está a correr tudo bem, mas depois chega-se ao último dia e há sempre muitas peripécias, mas nada que não tenha sido resolvido”, afirmou.
No que diz respeito ao barco que a Escola de Samba levou ao palco, a coordenadora e ensaiadora explicou que foi um risco que decidiram correr: “Foi arriscado, mas já o tínhamos feito na apresentação do Carnaval. Foi redecorar, porque se enquadrava no tema, e todos ajudaram para se conseguir pôr no palco”, aclarou.
Autor: Jornal Frontal

