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As Festas do Magusto, de todos os Santos e do “Halloween”. Seu significado e antecedentes e influência nelas exercida pela calendarização do tempo. (Parte 5)


Wednesday, 23 January 2019

Entre esses elementos acrescidos, temos, por exemplo, o costume dos "disfarces", muito possivelmente nascido em França, entre os séculos XIV e XV. Nessa época, a Europa foi flagelada pela Peste Negra e a peste bubónica que dizimou perto da metade da população do Continente, criando, entre os católicos, um grande temor e preocupação com a morte. Multiplicaram-se as missas na festa dos Fiéis Defuntos e nasceram muitas representações artísticas que recordavam às pessoas a sua própria mortalidade, algumas dessas representações eram conhecidas como danças da morte ou danças macabras.

Possivelmente, a tradição de pedir um doce ou um santório, sob ameaça de fazer uma travessura (trick or treat, "doce ou travessura", na linguagem inglesa), teve origem em Inglaterra, no período da perseguição protestante contra os católicos (1500-1700). Nesse período, os católicos ingleses foram privados dos seus direitos legais e não podiam exercer nenhum cargo público. Além disso, foram-lhes infligidas multas, altos impostos e até mesmo a prisão. Celebrar a missa era passível de pena de morte e centenas de sacerdotes foram martirizados. Produto dessa perseguição foi a tentativa de atentado contra o rei protestante Jorge I. O plano, conhecido como Gunpowder Plot ("Conspiração da pólvora"), era fazer explodir o Parlamento, matando o rei, e assim dar início a um levantamento dos católicos oprimidos. A trama foi descoberta em 5 de novembro de 1605, quando um católico convertido, chamado Guy Fawkes, foi apanhado guardando pólvora na sua casa, tendo sido enforcado logo de seguida. Em pouco tempo a data converteu-se numa grande festa em Inglaterra, que ainda perdura nos dias de hoje: muitos protestantes celebravam-na, usando máscaras e visitando as casas dos católicos para exigir deles cerveja e pastéis, dizendo-lhes: “trick or treat” (doce ou travessuras). Mais tarde, a comemoração do dia de Guy Fawkes chegou à América trazida pelos primeiros colonos, que a transferiram para o dia 31 de outubro, unindo-a à festa do “Halloween”, que havia sido introduzida no país pelos imigrantes irlandeses. Vemos, portanto, que a atual festa do “Halloween” é produto da mescla de muitas tradições, trazidas pelos colonos no século XVIII para os Estados Unidos e ali integradas de modo peculiar na sua cultura. Muitas delas já foram esquecidas na Europa.

Hoje, é vulgar introduzir no “Halloween outros novos elementos, além dos das bruxarias já apontados, como o terror, as fantasias com gatos pretos, vampiros, fantasmas e monstros. Todavia, isto não reflete nem a tradição pagã nem mesmo a cristã. Os anglo-saxónicos introduziram também, nesta festa, a utilização da abóbora com a vela acesa, como o faziam os celtas com as cabaças e os Portugueses desde tempos ancestrais para afugentar as pessoas, os caminhantes e os espíritos maléficos.

Ainda hoje, na zona de Coimbra, se verifica a tradição do pedido dos santórios pelas crianças que utilizam a abóbora com a vela acesa no interior e pedem pelas portas: “bolinhos, bolinhós, para mim e para vós, para dar aos finados que lá estão enterrados para sempre ámen Jesus, truz, truz!”, o que é tudo uma mescla da tradição do Magusto e do “Halloween”.

c) Associação do Magusto à Lenda do S. Martinho

Segundo a lenda, no ano de 338, Martinho era um cavaleiro do exército imperial romano que, num dia de muito frio e chuva, encontrou um mendigo quase enregelado, que lhe estendia a mão. O cavaleiro, que não levava consigo nenhuma moeda, num gesto de solidariedade, cortou ao meio, com a sua espada, a capa que o cobria e tapou assim o mendigo, preparando-se para continuar viagem. Subitamente, parou a chuva e o frio e um dia de Inverno deu lugar a um autêntico dia de Verão.

São Martinho de Tours ou simplesmente São Martinho nasceu na Panónia, atual território da Hungria, no ano de 316, filho dum oficial do exército romano.